Foi em 1988 que dei o nó, como se costuma dizer em linguagem do povo. Na véspera, um dia 13, sexta feira, e, dia de superstição, convidei todos os meus amigos residentes em Portugal, mais os que estavam em Rebordainhos, de férias, no mês de Agosto, para festejar a minha despedida de solteirão. Encarregou-se o Vitório dos preparativos, referentes às bebidas e alimentação que pudessem saciar por volta de quarenta jovens bocas, no café da chave, lugar célebre e bem frequentado, cuja administração e gerência estava ao encargo do pai, que, especialmente esta noite, o deixou à nossa disposição para os festejos. Compareceram numerosos e bem-dispostos, e, com o decorrer da noite, a mariscada e as bebidas, arrasaram a noite toda, n’uma algazarra ensurdecedora, lamentada e criticada pela vizinhança, a qual se preparava para ir assistir à Eucaristia, quando nós saiamos, queixando-se: da pouca-vergonha
A filmagem e as entrevistas estiveram ao encargo do Tarcísio,
cuja animação, depois de barriga cheia, constituiu uma verdadeira revista à
portuguesa, com cantares, citações, embaraços, risos e vivas, vistos ao vivo
logo naquela noite. Saímos de lá como “parrecos” (todos molhados) numa direta
que ficaria para a história…
Teria dormido uma hora e já batiam à porta do meu quarto
para me preparar que o casamento estava marcado em Murçós às onze horas da
manhã. Impregnado numa ressaca atroz, de olhos semicerrados, tomei um banho de
chuveiro frio apressadamente, vesti o meu fato Ives S. Laurent, camisa e laço Pierre
Cardin, calcei uns sapatos pretos da feira, meti-me no carro e ups… cheguei
atrasado á Igreja, já o Pe. Delfim Batouxas esperava e desesperava com a falta
de pontualidade. Sentou-se n’uma cadeira junto do Altar-mor, convidou-me a
ajoelhar. Deduzi que se preparava para me confessar, mas, ainda estava eu
acabar a confissão já ele me abençoava, dando-me três ave-marias para rezar,
dirigia-se a passos largos para a sacristia, a fim de se paramentar.
O casamento é um ato ponderado, refletido e de grande
responsabilidade. Porém, a cerimónia do meu, decorreu enquanto dormia e sonhava
com a vida alegre, e a felicidade da qual desfrutei ao máximo, até aos meus 37
anos… aventuras, convívios, grandes e numerosas amizades, aprendizagem física e
intelectual, liberdade, guardando sempre bem presente na minha memória, os
valores morais e os princípios cívicos que me foram preconizados.
Nunca comemorámos as datas do nosso casamento.
Realizou-se, como tantos outros, na terra da esposa, no meu caso em Murçós que
mal conhecia, e que demorou o seu tempo a adotar, tão grande e forte é o amor à
minha terra mãe…
porém, com o decorrer do tempo, integrei-me perfeitamente, e
hoje, não suporto nem admito que falem mal desta terra nem desta gente, e,
sempre que me é solicitado um serviço ao meu alcance, aquiesço prontamente sem
restrições. Vivo aqui, como já vivi em diversos lugares do globo terrestre, e,
apesar de me ser apontado o dedo como a um forasteiro, sinto-me como o peixe na
água… afinal foi aqui que eu casei…












