domingo, 31 de outubro de 2021

Á procura da dor

ANTÓNIO LOBO ANTUNES António Gregório · 23 h · Hoje, depois de escrever dez horas seguidas e sentindo-me cansado demais para continuar, levantei-me da mesa e tirei um livro da estante do corredor. Calhou ser Dickens, numa edição barata da Wordsworth. Tempos Difíceis. Abri-o onde resolveu abrir-se e apareceram quatro linhas mágicas: um filho visita a mãe, velha e muito doente. Pergunta – Sente dores, mãezinha? e ela responde – Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer e fiquei parvo com isto. Entre parênteses adoro ficar parvo com o que os outros escrevem: só costumo ficar parvo comigo, a interrogar-me de onde é que é aquilo saiu, porque não foi de mim com certeza, de maneira que penso que a mão de um anjo substituiu a minha. Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer é uma pérola única. Igual à vida: quantas vezes senti isto, sinto isto, sem ser capaz de o exprimir. As dores que me pertencem são fáceis, as que não estou certo de me pertencerem custam tanto. Viro-as para um lado e para o outro, estudo-as contra a luz, experimento-lhes o cheiro, a consistência, a cor e a dúvida perpétua – Pertence-me? a perplexidade, a hesitação, enquanto a dor dói e me faz sofrer para burro. Estamos muito bem na sala e aí anda ela pelos cantos, fazendo de conta que não existe e no entanto a arranhar, a arranhar, ou antes a lacerar-nos todos, a gente para a dor – És tu? e não responde, finge que se vai embora e fica, que não nos liga e insiste, que não quer saber de nós e não desanima. Até no meio do prazer, até no meio da alegria permanece, alarga-se, entra mais fundo, com um arzinho distraído, não nos deixa em paz. Para quê falar nisto, o que interessam as minhas dores, de resto? É agosto e se fosse pequeno estava a caminho de Nelas com a família, não, Nelas em setembro, em agosto a praia, o raio de uma praia sem sol, nevoeiro e frio, a vendedora de bolos a passar com o cesto, as ondas cinzentas. Uma casa pequenina, alugada, a gente ao monte lá dentro. Eu lia, comprava o jornal desportivo, compunha versos que deviam ser frescos. E, toda a noite, o cordeiro do mar a balir. A minha mãe em fato de banho, o meu pai aos fins de semana, a cheirar a cachimbo, comigo na cama, de tábua nos joelhos, a aperfeiçoar redondilhas. Que diabo de texto é este em que comecei em Dickens e já vou nas redondilhas? A culpa é da esferográfica que vagabundeia sozinha. Nos livros sou disciplinado, nestas prositas divago. A dor, que não estou certo de me pertencer, abranda e depois volta, digo-lhe – Olá, dor e não lhe dou confiança. Não se deve dar confiança nem a nós, há que nos pôr em ordem. Põe-te na ordem, António, tu que durante a vida inteira detestaste obedecer. Aliás não te podes queixar, passaste o tempo a fazer o que querias. Agora, sei lá porquê, veio-me à ideia o meu irmão Pedro, o silêncio dele. Gosto de silêncio, de escutar palavras não ditas. Também gosto de pessoas que falam porque me permitem ir embora continuando ali. Elas falam, digo que sim com a cabeça e não estou. Estou onde? Na varanda da Beira a olhar a serra, por exemplo. Ou em parte nenhuma, num esconso interior, sentado no chão, de joelhos na boca, escutando o que não há. Desde que me lembro escuto o que não há, deixo que as coisas se inventem cá dentro, a minha cabeça é uma praia que a água invade e esquece. Neste momento, por exemplo, invadiram-me os travestis do meu bairro, com o seu único par de sandálias, heróicos no passeio, um movimento para diante quando se aproxima um carro, um movimento para trás quando o carro se afasta. Conquistaram duramente o quarteirão às mulheres pagas, após brigas de alto lá com o charuto entre os rapazes que protegem os dois negócios, um ganha-pão (agrada-me o termo ganha-pão) trabalhoso porque implica vigilância constante e bofetada fácil, para além dos quilos suficientes para se darem ao respeito. Lá voltam os Tempos Difíceis (dar-se ao respeito também me agrada) – Sente dores, mãezinha? e no caso de se interessarem por mim o que responderia? Talvez, lá no fundo, mas disfarço, garanto. É que existem coisas que não sararam na alma, não hão-de sarar nunca: as árvores de um cemitério de província a tremerem, algumas mortes, a minha violência tantas vezes injusta, patetices, indelicadezas, faltas de atenção com quem o não merecia. Espero ter melhorado, acho que melhorei mas continuo sem me perdoar o egoísmo necessário à escrita que me obrigou a cortar tantos pescoços que se interpunham entre eu e ela. No entanto, aprecio o António: comove-me a sua feroz guerra civil interior, a vulnerabilidade escondida, a compaixão que não mostra. O imenso orgulho que tem nos seus poucos amigos, a admiração por eles, o respeito. Dois homens, quando são homens, estão condenados a entender-se, não é? Agosto e o bairro deserto. Sobro eu, o senhor Cardoso da mercearia, o senhor Miguel do café, pouco mais. Ah, o senhor Varela a quem todos os dias pergunto pela diabetes. Até os pombos se foram, os restaurantes fechados. O senhor Cardoso viaja para a Beira Alta, perto de Seia, perto de mim. Fala da terra numa exaltação que me toca, mostra fotografias de casas e ruas, enquanto a esposa aprova. E o ar, senhor doutor? E a beleza daquilo? Alimento-me dos iogurtes que lhe compro, recebem o meu correio – Uma encomendazinha do estrangeiro de que a dona Irene corta as guitas com a faca: livros – Muito livro há-de ter você acha o senhor Cardoso, cujo filho, ao que parece, lê que se desunha: – Lê tudo, o meu filho e a dor que anda por aí e não estou certo de me pertencer amaina. Se a Joana – Sente dores, paizinho? afiançava-lhe logo que não, quais dores, que tolice. Dúzias de lugares para automóveis na rua, um casal na esplanada do senhor Miguel, um compincha drogado que a cocaína electriza. Mostra-me as tatuagens das cadeias (Vale de Judeus, Pinheiro da Cruz) onde passa temporadas a banhos por assaltar pessoas com um canivete. Garante – Se fosse preciso matava por si e desaparece num salto, pobre esqueleto desfeito. Dor nenhuma claro, Joana. Só que de tempos a tempos, mas isso não te digo, o coração num pingo. Não tarda nada passa, julgo eu. Julgo não, tenho a certeza: mais um minuto ou dois e há-de passar. António Lobo Antunes, in 'Visão' (2009-09-03)

Um dia diferente

Dia dos fiéis defuntos Avós, pais filhos e netos, que partistes, há horas dias ou anos, como estava predestinado, e que para nós fostes carinho amor, o abrigo das tempestades que só nos vossos braços encontrávamos o sossego, deixávamos de soluçar e as lágrimas caiam com menos frequência, com menos amargura, o coração batia num ritmo cardíaco quase normalizado, bastando um olhar brilhante, um sorriso meigo, uma palavra amiga, porque a vossa amizade será para sempre infinita nas nossas memórias, algumas delas também já cansadas preparando a viagem do reencontro; ornamentámos as vossas campas com umas simples flores, como se fosse vésperas de festa, mas merecias muito mais. Lutastes pela nossa vida e sobrevivência, nos sacrifícios e adversidades, privando-vos tantas vezes da vossa felicidade, retirando da boca o pão que saciou as nossas, defendendo-nos com garras de leões, amando e acariciando a carne da vossa carne, enquanto em noites de desespero choravas silenciosamente num canto da casa, procurando a solução para todos os nossos problemas,
angústias que vos roubavam o sono, que vos minavam por dentro deixando transparecer por fora, umas mãos calejadas um rosto enrugado, coxeando, sujos, encharcados, as dores penetravam no corpo e na alma, famintos e com sede, marchando como na guerra enquanto o alento permitisse. Esta flores representam simbolicamente apenas um sentimento de amor, porque jamais poderíamos recompensar o que vós fizestes gratuitamente. Fomos tantas vezes ingratos para convosco, esquecemos os nossos deveres, por ganância, por ingratidão ou hipocrisia, mas, hoje lembramo-nos por uns momentos, com vaidade propaganda dos nossos esquecimentos durante tantos dias que o ano tem, porque quem partiu não volta e quem está tem ocupações que não lhes permitem pensar a não ser no dinheiro, no ser mais que os outros, na luxúria, esquecendo que um dia chegará para nós a partida, porque o vento não para de correr e nos levará a todos nus como viemos ao mundo. Descanem em paz todos os defuntos do mundo

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Noticias da terrinha

Por António Braz Os amantes incontestáveis da terrinha aguardam ansiosamente noticias sejam elas boas ou más. Lá longe, “onde o sol castiga mais, só se ouvem suspiros e ais” porque o tempo não passa, mesmo passando depressa demais, é mais um ano no envelhecer, mas que alegria meu deus, ao vislumbrar da placa onde se pode ler Portugal! Nasceram aqui e embalados ou não é uma paixão que veio para perdurar, ainda que seja só por umas horas, é o remédio que mata a saudade, que atenua o que noutros tempos foi precário e agora envaidece; filhos e netos com habilitações literárias que lhe permitem uma vida social muito diferente do que foi a deles, que viveram na opressão na miséria e numa luta constante de sobrevivência. Estendidos pelo mundo são formigas sacrificadas, e quando chegam os tempos de glória cantam como cigarras, mimando acariciando e amando a carne da sua carne o sangue do seu sangue. Tem orgulho? Tem sim senhor, e com justa razão. Por cá, as notícias escasseiam, o movimento das pessoas é lento como as idades, as ruas esperam as vossas vindas para rejuvenescer, os eventos já eram, apesar da grande caçada ao javali organizada domingo, pela associativa, do qual resultaram dezassete peças, para a alegria dos organizadores e dos amantes deste hobby. Os caçadores numerosos invadiram os espaços reservados ao silêncio, e os automóveis ocuparam os lugares vagos deixados no mês de agosto. Também foram calcetadas as bermas da rua direita no fundo do povo, talvez à caça dos votos, mas as obras ficam e as pessoas passam… Já começam a cair as brilhantes castanhas, não será um ano prospero, mas este fruto ainda é o único que traz lucros para o lavrador sem muitos custos. Também os olivais se vão ficar aquém de outros anos, mas os seus frutos são sempre bem-vindos. Esta pandemia afetou o nosso País como tantos outro pelo mundo fo
afetou o nosso País como tantos outro pelo mundo fora, e agora é tempo de erguer a cabeça e seguir em frente, (Um sincero pensamento de pêsames par as famílias vítimas deste vírus mortífero) Não tenho frequentado o Facebook por razões pessoais, mas ontem lembrei-me e entrei, mas fiquei desiludido com os comentários das pessoas que como no futebol se substituem ao treinador. Somos um pavo vaidoso e queremos tudo depressa, sem ponderação, queremos sempre mais mesmo que outros sejam lesados. E lá vem o Salazar e o 25 de Abril como exemplo, porque já não nos contentamos humildemente com os empregos que temos e nos dão o seguro de que outros cariciam, e nem ousam lamentar-se… a televisão anuncia empregos que recusam os empregados por terem habilitações superiores às requeridas. Os subornos estão no ADN dos portugueses, e a corrupção deixa obras de arte entregues à esposa dos corruptos para que as falsifiquem e as façam desaparecer. A legislação é adequada às pretensões dos poderosos, e os milhões fogem daqui e dali, assujeitando apenas os infratores a prisão domiciliária, na suas casas confortáveis, e… assim vai a vida

domingo, 10 de outubro de 2021

Ò vida Vida!

“Ó vida, vida” Foram tantas as vezes que ouvi dos lábios da minha mãe esta frase, simples, e eu como ingénuo atribuía-lhe um significado de ligeireza misturado com pudor. Era a juventude surda, liberta e alheia aos problemas dos mais idosos, eles que os resolvessem! Hoje durante a minha caminhada, não consegui focar—me em mais nada o que me levou a escrever este texto. Freud dizia: o impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do amor. Juntos regem o mundo. O siclo da vida é uma caixinha que guarda as boas e as más surpresas. O que dizem os psicanalistas, os teólogos e os filósofos são teorias inverosímil. A vida, é uma passagem que se pode prolongar no tempo, nunca para lá do predestinado, ou terminar logo após o nascimento e muitas vezes em gestação voluntária ou não. A vida é uma luta constante, e todos nós lutamos pela sobrevivência. Porém, como não nascemos todos com as mesmas normas fisiológicas nem mentais vão surgindo pouco a pouco intervenientes preponderantes. Uns agarram-se ao pouco que possuem, levando a sua cruz de rastos, com doenças incuráveis, acidentes rodoviários e outros que atiram com eles para uma cama com paraplegia total, pedindo todos os dias para partir, mas ninguém os ouve, porque a lei está acima de tudo, mesmo do sofrimento de um ser irrecuperável… chamam-lhe eutanásia, mais uma teoria falhada. Outros, os privilegiados nascem em berços de ouro saltando para os lugares mais desonestos deste mundo, roubando fugindo e viverem em paraísos sem rei nem lei, e por muito que tentem não fazer parte dos mortais, no seu dia partirão também deixando para trás todos os bens e a vergonha que em poucos tempos se esquecerá. Dizia ainda Freud: Talvez os deuses sejam gentis connosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos. A morte prossegue-nos desde o nascimento, mas começamos a pensar mais nela com o envelhecer, e não serão as descobertas cientistas que nos libertarão do fardo de que fala Freud. São os destinos, somos os destinados. Por António Braz P.S fica ainda mais uma frase de Freud: De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Uma vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Dia de sorte

Dia de sorte 28/09/2021 por António Braz Amanheceu o dia com céu limpo, os passarinhos chilreiam num esboçar de contentamento, as árvores acariciavam o florescer enquanto nas ruas ainda vigiavam os primeiros amantes daquele silencio aprazível de paz e harmonia que só nas aldeias se pode desfrutar. Às narinas de Francisco, chegavam cheiros de pão torrado, crepes recheados com chocolate e outras guloseimas que o fizeram saltar da cama para fora como injetado por uma mola. Independentemente do que tinha acontecido no dia anterior, dormiu como uma pedra, e nem mesmo ao acordar ponderou o caso Cíntia. Estava bem disposto, pelo que tencionava arrumar num canto perdido o que já considerava passado e usufruir do pouco tempo que lhe restava na companhia dos avôs que adorava, passear pelas terras de singular beleza, e talvez encontrasse por lá o amigo Alfredo com quem gostava conversar. Depois de banhado vestiu roupa apropriada para andar no campo e veio até à cozinha onde a criada de costas voltadas não se apercebeu da sua chegada, e ele aproveitou para lhe fazer umas coceguinhas debaixo dos braços o que assustou a rapariga. - São para mim? - O quê… os crepes? - Claro o que devia de ser! - Para toda agente, e os seus avós estão à espera para tomarem todos o pequeno almoço. Todos?... – Claro pensava que tinha tanto trabalho só consigo? - Marota… Dirigiu-se para a pequena sala de jantar onde efetivamente a mesa estava quase cheia, restava apenas um lugar que por certo lhe estava destinado. - Ei…na!!! É hoje a malha? - E os bons dias também fazem parte da educação… - Desculpem. Bom dia. Ando distraído, e… A estupefação verificou-se de imediato nos que conheciam os acontecimentos bem recentes e esperavam ver um rapaz abatido, fragilizado ou até mesmo quezilado. Terminado o repasto, cada um foi à sua vida, mas o avô pegou num braço do neto e convidou-o para um passeio. Na sua mente estava ainda presente uma explicação de bom senso e queria ouvi-la da boca do rapaz. Quando já distanciados da herdade onde ninguém podia ouvir a conversa, começou por dizer: agora nós… sabes que te amo muito, mas, uma explicação em relação à tua amiga merece justificação. Não achas? É simples avô… eu e a Cíntia eramos namorados por amizade, e também porque a mãe quer que arranje uma mulher e tenhamos um filho para herdar os bens caso contrário o Estado fica com tudo… Mas… filho, que se passa realmente contigo? Não se passa nada, Ainda não encontrei uma moça de quem gostasse realmente, e… - O avô esperava ouvir mais e mais concretamente, ficou à espera que o rapaz desabafasse. - Avô na minha cabeça anda tudo misturado, e o meu corpo pode não ser igual ao dos outros homens… - Filho que me dizes, ou o que queres dizer e não consegues? - Avô, aconteça o que acontecer eu jamais os desiludirei, nunca. - Ó meu querido neto. Creio compreender… mas… há tantas incógnitas na tua expressão! Tu sabes que estarei aqui quando quiseres confidenciar coisas que não possas partilhar com tua mãe. - Obrigado avô e agora vou ter com o meu amigo Alfredo com quem gosto conversar e passear pelos campos

domingo, 26 de setembro de 2021

As pessoas nos restaurantes fazem-me sempre lembrar os quadros grandes, com martírios de santos, da igreja da minha infância. Casais que não se olham nem se falam: eles de queixo no prato, a espiarem os vizinhos de baixo para cima, elas de cabeça noutro lado e ambos a pensarem – Porque carga de água não me desamparas a loja? mas o dinheiro, mas o hábito, mas o medo da solidão dos homens – E se eu adoeço? mas a vantagem de ter uma mulher a dias sempre à mão, com olho para os botões a caírem e para as nódoas no fato apesar da chatice de ter que fazer amor com ela de vez em quando – Assim que acabo arranjo uma desculpa qualquer e levanto- -me logo porque ela gosta de ficar no nónhónhó, abraçada, e a gente o que nos apetece é que nos deixem em paz, o maior prazer que tiro daquilo é saber que – Agora, durante uma semana, estou safo pensar – Que raio de ideia me fez casar contigo? pensa – Só não me separo por causa das crianças quando não me separo não por causa das crianças, não me separo porque tenho medo, se me aparecesse uma garina em condições, mais nova do que tu, claro, mais bonita, o que também não é difícil, sobretudo de manhã, quando acordas, despenteada, sem pintura, não aguento o barulho dos teus chinelos no corredor, não aguento as tuas conversas, as histórias intermináveis acerca do emprego, constantemente interrompidas por um – Estás a ouvir? a gente, que não ouviu nada – Estou ela – Então o que é que eu disse? a gente, num resmungo – Que raio de conversa, se respondi que ouvi é porque ouvi a pensar – E se me deixasses em paz? a pensar – Que idiotas as mulheres que ainda por cima gastam um rolo inteiro de papel higiénico quando fazem chichi apesar de dois quadradinhos chegarem perfeitamente, para quê tanto papel, senhores, ao entrarmos de manhã na casa de banho encontramos sempre a rodela de algodão, toda preta, com que na véspera, à noite, tiraram a maquilhagem e que nunca despejam no balde como se custasse muito despejar aquilo no balde, basta carregar no pedal com a ponta do pé e nunca carregam, a rodela de algodão, a bandelete com que puxaram o cabelo para trás, a pasta de dentes sem tampa, a toalha torta no toalheiro, aqueles frascos todos, aqueles boiões todos, a inquietação a propósito de uma borbulha no queixo que teimam em mostrar-nos – Já viste esta borbulha? uma merdice que mal se percebe de súbito dramática, a queixa indignada – Nem olhaste a tragédia da celulite, a tragédia das estrias, o que elas decidem ser uma variz na perna esquerda – Estou uma velha ganas de concordar com elas – Não estás velha, estás a envelhecer porque a tragédia não é ser velha, é envelhecer, a inveja – Nos homens dá-lhes charme envelhecerem, nas mulheres é horrível de facto é horrível mas se por acaso concordamos – Pensas que és algum actor de cinema, tu? e de imediato referências à nossa barriga, à tristeza de nos estarmos a tornar repetitivos, à maçada de nos estarmos a tornar cada vez mais chatos, um olhar de desprezo à nossa silhueta – E gordo, e curvado portanto nada de conversas sobre a idade para não encontrar olhos que cintilam de lágrimas de humilhação e raiva, a boca, de cantos para baixo – Desculpa confessar isto mas o que tu mudaste e claro que mudei mas, ao contrário de ti, mudei para melhor, um dia destes tens as pernas fininhas como dois palitos cravados numa batata, há ginásios, sabias, o que não falta para aí são ginásios de onde voltarás toda suada, de madeixas agarradas à testa, com olheiras, a atirares-te para cima de um sofá, exausta, soprando – Já não tenho vinte anos e realmente já não tens, tens quarenta, perdão, quarenta e três, tu logo, ofendidíssima – Quarenta e dois nós – Fazes quarenta e três em junho e estamos em março, olha que grande diferença elas – E eu só não falo da tua idade por pena de mim, prefiro esquecer-me que vivo com uma múmia nós, picados – Não há nada mais amargo que uma senhora provecta e oxalá ela fique amuada uma semana ou duas, é da maneira que me salvo do tal e coisa por mais uns dias, tenho que pensar nas amigas da minha filha mais velha para conseguir o tal e coisa ou na atriz daquele filme de ontem na televisão ou nas pequenas do rialitichâo que tu – Umas pindéricas, umas saloias para não dizer a verdade pindéricas e saloias de facto que nem português sabem falar mas aqueles peitos, aquelas cinturas, aquelas bocas, no fundo não há como uma pindérica saloia para acordar hormonas, tu, desgostada – Vocês, homens, são uns animais, e de facto somos, tens razão, somos uns animais mas é graças a elas que eu, e calamo- -nos a tempo, ou seja, pensamos que nos calámos a tempo mas não nos calámos a tempo porque bateste com a porta do apartamento e fico sozinho, sem saber o que fazer, no terror que te passe pela cabeça não voltar. António Lobo Antunes, in 'Visão' (2016-06-23)

sábado, 18 de setembro de 2021

Avec le temps Por António Braz (ficção) Quando o Tiago era pequenino, do seu carrinho confortável e fino, abria os olhos lindos de um azul celeste, e o seu sorriso meigo atrevido meio provocador, atraía os olhares dos passantes, carinhoso, afável, atrevido que proporcionava comentários tais como: quando fores crescidinho todas as meninas te vão adoletrar. Os pais ficavam orgulhosos, seguindo o seu caminho, sem problemas na vida, com uma situação social bem estruturada, trabalhando os dois, vivendo em união de faco, numa casinha modesta, mas espaciosa, onde o quarto do menino se tornou o centro das atenções. Apesar da juventude dos pais, a criança foi apaixonadamente desejada, e recebida como um dom divino. Foi crescendo sempre com aquele entusiasmo de felicidade, até à idade dos seus dois anos, irrequieto, carinhoso, e de uma inteligência fora do comum. Porém não balbuciava palavra ou silaba e a inquietação dos pais aumentava enquanto aguardavam um possível atraso. Contudo resolveram consultar a pediatra a qual embora com reticências, encaminhou-os para um serviço especializado. O diagnóstico caiu nos dois jovens como uma bomba que fere até à profundidade das entranhas. Como era possível nunca terem reparado que o menino não ouvia? Foram tantos os índices, mas quando se é pai e mãe só vemos o que nos convém… um surdo mudo que nada alterava ao amor que os progenitores tinham por ele, mas que por certo viria a ser um entrave no decorrer do seu crescimento e mais tarde no mercado do trabalho. Foi crescendo com a deficiência que o destino lhe legou, e como era excecionalmente inteligente, foi ele próprio a encontrar a maneira de comunicar com os pais e outros familiares, através das novas tecnologias, que manipulava aos quatro anos, muito acima dos adultos dotados e considerados como os crac na matéria. Frequentou durante um ano as escolas especializadas, sobretudo a gestual, mas a aprendizagem durou tês vezes menos tempo que para os habituais alunos. Com cinco anos terminou o 1º e 2º ano. No seu computador, tablet ou telemóvel que manobrava como um cozinheiro de renome a sua cozinha, ele instalava todas as ferramentas de que necessitava, e com elas chegou ao décimo segundo ano tinha apenas doze anos fazendo sempre uma vida normal, embora certos jogos dos adolescentes como ele não lhe interessassem tentava humildemente participar, e nunca sentiu descriminação, apenas umas peadas dos colegas com idade muito superior à dele. Com dezoito anos tinha já terminado o curso superior em ciências aplicadas e foi convidado para trabalhar numa empresa Americana de renome onde se faziam pesquizas para deficientes de todos os géneros, mas não aceitou porque tinha mais um ano para concluir o doutoramento. Muito querido, mas sobretudo admirado por personagens de alto nível que levavam os cumprimentos ao fastio do rapaz que apenas tinha nascido diferente dos outros. Tiago vivia alegre e feliz na sua humilde casinha em companha dos pais que também planeavam secretamente um futuro com vislumbre para o filho, mesmo com a deficiência existente. Já com o doutoramento concluído, chegavam a casa propostas de imensas firmas, reconhecendo os dons intelectuais do rapaz. Porém, num dia de outono, quando as folhas já começavam a cair, enquanto passeava na margem do rio, começou a sentir uma dor de cabeça que progredia para a atrocidade, e, de volta a casa, os pais com grande aflição chamaram o INEM que o conduziu de imediato ao hospital de S. João e o prognóstico do 1º médico que o observou revelava-se reservado, mas bastante critico. Numa sala ao lado dialogavam os melhores professores do hospital depois de ter passado pela ressonância magnética, e a conclusão não era deveras otimista. Entretanto tinham-lhe sido administradas duas doses de morfina para amortecer aquelas horríveis dores e gritos que Tiago quase já sem forças, debatia-se perante os olhares impotentes da medicina, sendo um caso raríssimo que presenciavam tristemente com lágrimas a descer lentamente pelos rostos, e sem coragem para comunicar o seu estado aos pais que aguardavam ansiosos na sala de espera. Ligaram para os mais prestigiosos hospitais dos estados unidos para uma eventual transferência que não julgaram aconselhável em virtude da distância e do estado do doente. Duas horas depois foi anunciado o óbito. Tiago partira para sempre