quinta-feira, 25 de abril de 2013

A revolução dos cravos


Foi há 39 anos... como o tempo passou! Veloz, porém, lembro-me como se fosse hoje... cada um de nós,que vivemos  esta revolução, podemos contá-la de forma contextual talvez diferente, seguindo critérios abrangentes, e localização no momento dos factos.
Eu estava no Porto, onde frequentava um curso de dactilografia e contabilidade, ficheiros e arquivos, na TECLA, que ficava na Av. Dos Aliados.Morava no Barro de Quebrantões Gaia, e tomava todos os dias, pela manhã, a camioneta que me deixava na estação de S. Bento, fazendo o resto do trajecto a pés. Passávamos no dia 25 de Abril de 1974 pelas 9h da manhã em frente do Quartel da Pesada, e, junto da ponte D. Manuel, no fundo da Av. então nomeada General Torres uma agitação gigantesca de homens fardados, obrigaram o condutor a uma paragem mais
demorada que de costume, e por entre os murmúrios receosos dos passageiros, ouvia-se dizer que os tropas andavam a armadilhar a ponte toda com explosivos, porque o povo se tinha revoltado por iniciativa dos Capitães, e em caso de resistência, do Governo de Marcelo Caetano seria destruída para não servir de passagem aos resistentes. Na minha jovem mente, passou um rápido frenesim ao qual dediquei pouca importância, supondo tratar-se de um acto isolado que não ia a lado nenhum...Mas ao entrar na escola, de imediato nos disseram para regressar a nossas casas o mais rápido possível, e que iam fechar as portas imediatamente. Ao sair as portas do grande prédio, na Av. dos Aliados, fiquei perplexo, confuso, e temeroso com o que se deparava aos meus olhos. Uma multidão de pessoas gritava
e corria em todas as direcções como se toda a gente tivesse enlouquecido...os policias fugiam refugiar-se não sei onde, e eu, só tive tempo de pensar como fazer para atravessar o rio Douro e ir meter-me em casa. Os transportes já não circulavam, optei pela corrida a pés. Tomei pela rua das flores, desci à ribeira, onde o aglomerado de pessoas era menor, atravessei pelo tabuleiro de baixo da ponte D. José, e, pernas para que vos quero até ao café mucaba, onde se comiam ricas francesinhas, passei junto do Externato Pedro Nunes que frequentava, sem uma olhadela, cheguei a casa ofegante e felicíssimo por ter escapado ao que parecia ser o fim do mundo.O resto dos acontecimentos, vivi-os através dos noticiários, da comunicação social. No mês de Maio do mesmo ano, ingressei na tropa, e fiquei deveras revoltado, quando meses depois, já em Arca d'Água, no RTM de engenharia nos foi ordenada uma fiscalização aos locais onde funcionava a (PIDE).Abençoado 25 de Abril que tinha acabado com tanta barbaridade.

3 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Obrigada pelas tuas memórias e, sobretudo, pelo modo como encerras o teu texto. E sublinho o final porque estou cada vez mais farta de ouvir a expressão "quem nos governa desde há 40 anos" associada a tudo quanto é mau, esquecendo-se a miséria e o horror do antes disso. Pessoalmente, sabe-lo bem, os três irmãos na guerra não me deixam desvanecer o asco que sinto pela ditadura.

Obrigada e um grande beijo

antonio disse...

Olá Fátima: concordo com o teu sentimento de revolta, que aliás partilho sem preconceitos. Sei perfeitamente das consequencias adjacentes aos familiares. Devo felicitar-te pelo texto do blog.rebordainhos, excelente! Aconselho a visitar. Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Obrigada!

Aquele texto reproduz memórias de infância: tive irmãos na guerra entre os meus oito e doze anos de idade. Era assim que a minha mãe procedia, sempre que recebíamos o aerograma de um dos meus irmãos; era assim que o meu pai se quedava, ouvindo atentamente e sofrendo para dentro. E dói-me ainda muito.

Beijos