sábado, 19 de janeiro de 2019

Passagem de 2018/2019

 Merci Moíse fomos recebidos como (pachás)





Viveres

Por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

Nota: este texto, escrito por mim, já foi publicado noutro blog que os gestores congelaram, sem qualquer referencia à minha colaboração, pelo que me sinto com o direito de voltar a publicar sem pedir o consentimento.

Rebordainhos foi, desde a minha lembrança, uma aldeia bastante populosa, apesar das grandes dificuldades socioeconómicas, inerentes parcialmente da posição geográfica e da adesão total ao Cristianismo, na imposição de valores e princípios morais e religiosos. Nas décadas 50/60, a emigração para o Brasil, África e Europa facilitou de alguma maneira a vida aos que ficaram. Contudo, a despedida era um calvário para os que partiam e para os que ficavam… havia acompanhamento geral até à saída da Aldeia, choros e gritos como se fosse um adeus para sempre.
As circunstâncias básicas, a carência de meios contracetivos, o magro conforto e outros componentes, tornavam a natalidade num fardo pesado e complexo para o agregado familiar. Houve mulheres que pariram mais de vinte filhos, ainda que só parte deles viesse a sobreviver! Treze, foi o número que superou a média geral de 7/8. Os partos eram domiciliares e as parteiras designadas para o ato aprenderam as técnicas, como os miúdos aprendem a andar ou a falar: pela força das circunstâncias. Contudo, dada a falta de meios, podiam ser consideradas geniais. Existiram casos onde a mãe biológica, por diversas razões, deixou de amamentar o bebé e outra mulher, em situação de pós-parto, substituiu-a no aleitamento.
Chegava o batizado, e os padrinhos, nobres e ricos de preferência, viriam a ser tratados por “compadres”. As minhas recordações infantis têm como ponto de referência os cinco anitos… capturando “azeiteiros” na poça da fonte grande.


A partir dos seis anos, a catequese, as catequistas, Lúcia, tia Ester e Aninhas da Eira, tiveram ações preponderantes e de grande eficácia na educação de cada um de nós, para além da formação teológica religiosa. A tia Lúcia, incansável desde sempre, na ajuda aos arranjos dos altares, cantares, lavagem das toalhas, enfim… merecia a medalha de fidelidade, desempenhando várias tarefas, na Igreja, benevolamente. A cruzada, desde sempre me fascinou… vestida de branco, com a cruz das caravelas, em fila de dois, direitinhos como fusos, orgulhosos e sorridente, saía nos eventos importantes, festas etc. O Luís, que na altura frequentava o seminário, e vinha passar férias a casa da tia Helena, iniciou-nos às primeiras notas musicais, e algum latim que decorávamos sem saber o que queria dizer, salvo uma frase aparentemente maliciosa, mas que queria apenas dizer: “ Os peixes romperam as redes”!?

Alguns de nós aprendemos a ajudar à missa, em latim… quase sempre a dois, e foi numa vinda oficial do Bispo, que uma “barracada” imprevista e incontrolável de riso surgiu, entre mim e o Pintassilgo, ajudantes designados pelo P.e João. Com antecedência de 15 dias, decorámos uns textos de boas-vindas, ensaiados ao pormenor para que nada falhasse naquele dia, juntamente com outras fantasias e cânticos religiosos. À saída dos ensaios, alguém nos contou uma história relacionada com a missa, os ajudantes,

alguém nos contou uma história relacionada com a missa, os ajudantes, e um ratito. Pelos vistos, o rato apareceu por baixo da lâmpada a azeite, no canto entre o granito e o altar-mor, e, com as suas idas e vindas, alheio aos olhares curiosos, despertou a atenção dos ajudantes. Parecia mesmo que se passeava com prazer, lentamente, como a saborear a sua timidez quebrada. De repente, o Sacerdote voltou-se para os presentes e, abrindo os braços, disse em voz alta: - “ Orate fratres”- O ratito desatou a correr, “enfusgando-se” no seu esconderijo, enquanto um dos ajudantes respondia em voz alta: “Porra que mo espantaste”!

Nesse dia, o da visita do Bispo, cujo cerimonial não podia falhar, aconteceu um caso similar: um ratito, como por magia, quis participar na festa. O primeiro a vê-lo foi o Moisés que, com um sinal discreto, nos apontou o animal descontraído a passear. Ainda estávamos no início da Eucaristia, mas já não conseguíamos conter o riso que, apesar de o tentarmos abafar, se ouvia por toda a Igreja. Outros galafates, conhecedores da história, entraram na sinfonia dos espirros, cada vez mais ruidosos. O Sr. P.e já se tinha voltado duas ou três vezes, com ar repreensivo, que pouco ou nada acalmou os entusiasmos. Chegou a frase fatídica (orate fratres), e desencadeou-se um alvoroço tão ruidoso, que o Sr P.e desceu as escadas, pegou-nos pelas orelhas, um de cada lado, e levou-nos para a Sacristia. Como não conseguíamos explicar os deploráveis acontecimentos, deu-nos um pontapé no rabo atirando connosco para o adro. Os ânimos nem por isso se acalmaram, porque na Igreja ficaram ainda o Moisés, o João cuco, o Pedro e outros que como nós conheciam a história, e cada vez que olhavam uns para os outros, recomeçavam a sinfonia de risos, enquanto ao fundo da Igreja a D. Graça e D. Maria murmuravam furiosas: “Que pouca vergonha!”

Fomos crescendo e a rebeldia acompanhava-nos humildemente, fiel como as conquistas amorosas. Nos amores, abordagem para dar o primeiro passo era um esforço colossal, invadidos que estávamos pela timidez e pelo receio de levar um “ chega para trás”. Na adolescência aprendíamos com os mais idosos, técnicas que, se podiam facilitar a tarefa, também podiam ajudar a distanciar a pretendida.

Um caso concreto aconteceu numa tarde, ao cair da noite, lá para os lados das Ribas, onde três “lafraus” nos deslocámos, a tornar a água no lameiro do tio João Santo. Ao fundo, havia outro que confrontava com este e pertencia ao pessoal dos Pereiros. Por coincidência, um rapaz mais velho que nós andava nas mesmas ocupações, e aproveitámos para lhe perguntar se sabia escrever cartas às “garinas”? Partiu-se em gabanços e, como tal, pedimos-lhe para nos escrever uma… que no dia seguinte nos entregaria. O envelope vinha colado! Manifestámos o desejo de ler o que vinha escrito, mas o sujeito justificou a negativa, como sendo um meio seguro para não aprendermos as suas técnicas. A carta foi entregue e mal interpretada, possivelmente por ignorância, e no primeiro encontro o rapaz recebeu como resposta uma grande bofetada.

A maioria dos casamentos era organizada segundo os haveres materiais de cada um, pelos pais e familiares próximos. Havia relativamente poucas possibilidades de casar fora da terra, pelo facto de não existirem transportes para os encontros e, namorar por correspondência era uma aventura incerta. O paga-vinho obrigatório para os forasteiros de outras terras era uma tradição temerária, embora engraçada para quem presenciava. As moças, que estavam limitadas a saídas com acompanhamento, aproveitavam a ida à fonte para trocar rápidos olhares, ou palavras fugitivas. Com todas estas restrições, ainda havia casos de resistência às imposições, à semelhança do que acontecia na literatura: “Rosa do Adro”, “Amor de Perdição” “Romeu e Julieta”.

Foi num caso similar que, um dia, fui abordado pelo meu melhor amigo que me pediu para o acompanhar a casa dos pais da namorada, a pedi-la em casamento. Sabia das divergências existentes mas, apesar de serem de maior idade, impunha-se o tradicional pedido. O meu amigo acabava de pôr à prova a minha amizade. Respondi afirmativamente, mas quando me disse que era para aquela noite, fiquei como paralisado… era principiante na matéria, e o pai da noiva não era de cócegas! Quando lhe entrámos em casa, já a noite caía, porém, talvez já sabedor da nossa visita, o chefe de família tinha-se ausentado. Sentámo-nos à lareira e esperamos. O meu coração batia a duzentos por hora, ansioso por que o homem chegasse, e receoso com a astúcia a adoptar. Para culminar o meu desespero, outra pessoa estava presente e, como é óbvio, adivinhou as razões da nossa visita, por isso não arredava pé. Já era alta noite quando apareceu o pai da moça. Sentou-se, mas o diálogo tornou-se num silêncio pesado, temeroso, indeciso. Tanto o rapaz como a rapariga olhavam-me vezes sem fim, como a implorar o meu pedido, mas a garganta apertava-se-me, e a língua bloqueada não balbuciava palavra. Impaciente, mas em vão, o meu amigo dava-me joelhadas em silêncio: da minha boca não saía palavra… Até que, por fim, já bastante tarde, enchi os pulmões de ar e, a gaguejar, consegui pedir a rapariga em casamento. Jurei a mim mesmo, nunca mais aceitar as funções de intermediário no que diz respeito a casamentos!


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Destinos e destinados

 Destinos e destinados
Por António Brás
Os tutoriais de um tempo revogado que infringiam, sobretudo às classes proletárias, preceitos conjunturais compulsórios diminuíam percentualmente a Acão reativa dos seres humanos submergidos pela soberania e pela fobia que os perseguia até aos sonhos maliciosos em noites de insonolência, triturados por deveres e obrigações, deitados em colchões de desconchego, uma simples manta de farrapos, em noites invernais, barriga a dar horas, e a responsabilidade de criar numerosos filhos martirizava-lhe o vulnerável cérebro.
Na casa que os pais de Carlitos compraram e ofereceram aos noivos, discretamente isolada, murada e com um lindo jardim, mobilada e recheada com o necessário para poderem viver despreocupadamente, não reinava grande euforia e muito menos felicidade como Paula sua esposa esperava. No início, quando voltava da faculdade de economia, encontrava o marido de péssimo humor, ou estava ausente até muito tarde, era já noite quando regressava com justificações esfarrapadas, ou que tinha estado em casa dos pais e se demorara sem ver o tempo passar. Numa dessas noites, Paula esperava-o radiante. Vestia um vestido decotado de cor azul céu, calçou os sapatos de salto alto, tinha ido ao cabeleireiro arranjar o cabelo com madeixas, e sorria como quem se sente felicíssima, o que deixou logo o marido de pé atrás.
Sem pronunciar uma única palavra esperava ali hirto, mas a esposa fez durar o suspense até que por fim: - Vais ser pai meu querido!
Não obteve do marido a reação que esperava, pelo contrário Carlos parecia petrificado.
- Não ficas feliz com tão linda noticia?
- Eu… Não será demasiado cedo… tínhamos a vida toda pela nossa frente…
- E temos para dar carinho, amor e uma educação como nos compete.
- E essa mascarada para que foi?
- Para ti meu amor… e se concordares íamos jantar fora para celebrar?
Carlos aquiesceu, para não levantar suspeitas sobre o adultério que consumava secretamente com Júlia, nos recantos mais escuros que ambos conheciam, enrolados como amantes sem se sociarem das consequências provenientes de atos irrefletidos, como dois adolescentes perdidos pela paixão. Durante a refeição esteve alheio às conversas da esposa que iam bater sempre no mesmo: a felicidade de estar gravida do homem que amava e com o qual queria formar uma família igual a tantas outras. Porém para Carlos era um fardo que até podia por em causa o seu amor secreto.
Voltaram para casa ainda cedo, a criada esperava na cozinha caso necessitassem de alguma coisa. – Vai-te deitar Gertrudes, que eu e o meu marido precisamos de privacidade, - disse Paula com voz apreensiva.
Quando estavam sós no salão deu-se a explosão esperada. – Carlos; disse Paula em tom suave. Conta-me tudo o que se está a passar contigo. Lembra-te que me prometeste lealdade e fidelidade há apenas um mês naquela igreja onde ambos fizemos o mesmo juramento… não eras assim antes de casarmos! Porque razões adventícias te tornaram um homem frio, insensível, distante, intangível, enfim vives como um robô manipulado e desinteressado de tudo e de todos. Nem o privilégio e a felicidade que Deus te concede poderes ser pai te faz reagir? Onde está o homem que eu conheci? Deitamo-nos na mesma cama, e pior que dois estranhos nem sequem fazemos amor! Tens sempre uma razão esfarrapada, e eu tolerante, aguardava na esperança de que fosse apenas uma passagem de estado de espirito, mas hoje deste-me razões suficientes para desconfiar da tua sinceridade para comigo. Por amor de Deus conta-me. Quero ajudar-te Carlos meu querido…
- Que ideias são essas que apodrecem essa cabecinha? Eu sou o mesmo. Tu também passas o teu tempo na faculdade… como queres que ocupe o meu tempo? Não é verdade que não fazemos amor, a prova está nesse bebé que vem aí…
- Oh Carlos! Se é só por isso posso congelar o meu curso?
- Não, isso não. Eu vou tentar estar mais presente e ser o marido ideal como tu gostas.



  

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Amor selvagem


 Quem sou eu? Não me deram um nome
Não tenho pai, não conheço a minha mãe
Sou uma flor
Sou uma planta
Ninguém me diz, ninguém me canta
Orfa de amor, de tudo que toda a gente tem
Sem perfume, sinta a dor
Entrançada até à garganta
Cor de vinho, cor do sangue
Cresço ao abandono de todos
Será que sou mesmo uma planta?
Quem me dera ter um dia
Tudo o que os outros têm
Ser amada ser beijada
Levada para as nobres casas
Morar em vasos de alegria.

            A Braz


















sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O sem abrigo

 Sem abrigo:
Foi a denominação que ele se atribuiu, com a qual se apresentou, quando me pediu amizade numa rede social. Só ele sabia porquê, o verdadeiro significado, que jamais me revelará, e que me deixou perplexo, sobretudo nesta fase da vida, sabendo eu, que socialmente, se tinha afirmado com prestígio e lavor. Era feliz com a sua admirável família, a qual eu não conhecia, mas que tantas pessoas elogiavam. Vestia mal era a sua escolha, falava com peso no coração, como quem manifesta desagrado, um desalento inexplicável. Não reconhecia o primo Toninho! Porém todo ser humano pode mudar, tem esse direito, e não lhe fazia perguntas. Recordava-me dele enquanto puto, porque vivíamos em casas meeiras, propriedade do nosso avó Manuel, descalço e vestindo uns calções aos quadros, tal como o irmão que a fatalidade de um dia Negro lhe roubou a vida, num acidente estupido. Das dificuldades que a minha tia teve de enfrentar quando o pai os abandonou( mais tarde reconheceu o toninho como filho dando-lhe o seu apelido)…da fome que juntos disfarçávamos junto da fonte grande, ou assentados no tanque que servia de bebedouro aos animais. Mas todos os pássaros aprendem a voar, uns pelos seus próprios meios outros ajudados. No decorrer da nossa juventude cada um de nós seguiu o caminho traçado pelo destino: eu emigrei para o estrangeiro, ele, mais novo de uns anitos, completou pelos seus próprios meios as habilitações requeridas para ingressar na polícia de intervenção. Ainda antes de imigrar para Lisboa Defendeu as cores da equipe de futebol de Rebordainhos, como guarda-redes, com brio, orgulho e paixão, em detrimento da sua integridade física, saboreando com vaidade os aplausos e olhares femininos que de longe o lisonjeavam. Recordo também com grande emoção um ato heroico que lhe podia ter custado a vida.

 Aconteceu na nossa casa de chave, quando a fuga de gaz de uma garrafa se incendiou e nos deixou a todos pétreos de pavor como estatuas. Ele que estava passando, sem hesitar, entrou pela porta dentro, com um pano qualquer desliga a botija do fogão, agarra nela às costas e sai para o meio da rua onde acabou por fechar e neutralizar as chamas, e consequentemente a explosão.
Hoje recebi a triste notícia da sua partida definitiva para o além, fulminado por um AVC. Tão jovem meu deus? Siderado passei a noite a ouvir aquele cântico: - Vale a pena viver… e a interrogação martiriza-me o senso… como um barco à deriva, procuro na terra, o que os marinheiros procuram no mar… emprestam-nos uma vida a prazo, para alguns mais longo outros mais curto,
 , e dentro deste parâmetro, somos todos iguais e tão diferentes! Um Muçulmano tem como referencia, o ALCORÃO, os Budistas NIRVADA, os russos a ORTODOXA, NA China o Taoismo, e finalmente o ateísmo, testemunhas de jeová, reino de deus, todos partem na hora e dia previamente marcado seja qual seja a crença.
Hoje fui ao teu funeral, tinhas apenas 59 anos, e durante o trajeto que me conduziu àquela igreja onde jazia o teu corpo inerte coberto de flores, nos meus ouvidos ressoava interruptamente aquela frase: - Vale a pena viver, por ti só por amor...
Entrei com pezinhos de lã como quem tem receio de acordar uma pedra que dorme para sempre. Não te vi, ocultaram-te, mas os abutres não conseguiram levar a imagem que continua gravada no disco rígido do meu ego. Conheci a tua esposa e filha a quem chamavas princesa, e sensibilizaram-me as frases de agradecimento que ela em voz dolorosa foi prenunciando para os presentes de Parada, Rebordainhos e Amarante. A presença do teu pai e do teu filho humedeceram-me os olhos, mas não chorei por saber que não gostarias. Também estavam presentes quase todos os teus irmãos, que a tua rebeldia enfurecia e as ações amaciavam. Tiveste uma cerimónia digna e merecida, até os salmos foram cantados pela tua ex-cunhada como uma diva. Agora sei que valeu a pena teres vivido, tal como eras, um sem-abrigo.
Descansa agora em paz, Toninho meu primo.
   


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Destinos e destinados


Destinos e destinados
Por António Braz
Após uma lua-de-mel nas Bahamas de quinze dias, com altos e baixos nas relações de recém casados, Carlos e Paula voltaram aos ninhos paternais, enquanto não era posta em cima da mesa outra solução peculiar de independência e discrição, numa vivenda comprada e oferecida como prenda de casamento pelos pais da noiva, mas, o entusiasmo não parecia ter a euforia desejada, porém, para salvar as aparências, Carlos era um ótimo Actor, fingia uma felicidade que não existia no seu coração, e o pensamento voava para a mulher que amava realmente, Júlia. Por sua vez esta secara as lágrimas vivia um dia de cada vez, esperando voltar a apaixonar-se por alguém que a levasse ao altar e a fizesse feliz. Até que se apercebeu, dois meses depois da tragédia que supostamente vinha aí. Todos os sintomas apontavam para uma gravidez, o que vinha metamorfosear todos os seu projetos, ambições, enfim… a sua vida e a de seus pais conservadores que dificilmente aceitariam que se tornasse uma mãe solteira.
Mandou entregar discretamente por uma amiga, uma carta ao Carlitos na qual referenciava o pavor que lhe causava tal situação onde se encontrava sozinha sem saber o que fazer…
A resposta dizia apenas:
A notícia veio retirar do meu peito a ansiedade que me sufocava… é maravilhoso! Um filho teu e meu que melhor notícia podia desejar um moribundo carenciado de amor? Estamos os dois armados para o: “que der e vier”; cuida bem desse bebé.
Também na casa de Sr. Félix para onde Fernanda tinha sido levada e onde vivia desde então, a pedido deste, embora sem precisar realmente, porque tinha uma governanta formada na alta sociedade quando ainda sua esposa vivia, embora já com idade, mas sempre fiel aos seus valores e princípios, tendo-o ajudado como uma mãe, quando esteve quase a tocar o fundo, durante o tempo que durou aquela maldita doença, acabando por a levar sua esposa, ainda jovem e quando ambos projetavam ter uma família com filhos, depois de realizados os projetos profissionais, ele como médico e ela como investigadora cientifica, os factos até então passados a ferro quente, se complicaram, pelas mesmas razões sintomáticas de Júlia, as quais não passaram despercebidas, ao médico que receava a reação da moça quando se certificasse da verdade. Andava pálida, dando escapadelas ao quarto de banho, tentando disfarçar com alegada má disposição… Estavam sentados à mesa os três, como sempre embora fosse uma família abastada, jamais esqueceram que tinham fugido da Bélgica, para não serem presos e levados como o resto da família para campos de concentração perseguidos pelos nazis porque eram “juifes”, em tempo de guerra, quando o médico olhando Fernanda com ternura e em voz afetuosa balbuciou pela primeira vez as suspeitas que recaíam sobre os ombros daquela pobre Aldeã e a carregavam de vergonha;  - tu és apenas a vitima, filha – não te culpes de nada, nem chores porque o nascimento de um filho é a coisa mais maravilhosa que existe neste Mundo! Com minha esposa fizemos projetos que nos traziam tão alegres e felizes, que jamais esquecerei… - e uma lágrima veio inundar-lhe o canto da boca – estou perfeitamente consciente do que te passa pela alma, e te martiriza o coração, porém, sabes que nos tens ao teu lado, a mim e à Josefina não é verdade? Esta será sempre a tua casa enquanto o desejares, e nós a tua família se nos aceitares como tal… também tens a alternativa de ir procurar o pai desse filho e chamá-lo à responsabilidade…
- Ó não. Isso nunca – respondeu Fernanda em voz insegura – o pior vai ser a minha família quando souber?
- Deixa essa parte comigo – retorquiu o médico.
O Sr. Félix conhecia vagamente a família de Carlitos por ter convivido com o pai na Universidade de Coimbra embora em cursos diferentes. Um medicina o outro engenharia. Contudo não exporia o caso já que Fernanda não o desejava. Contratou um detetive privado para ir meter o nariz na vida desse machista, e lhe fosse dando todos os pormenores.