terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Amor selvagem


 Quem sou eu? Não me deram um nome
Não tenho pai, não conheço a minha mãe
Sou uma flor
Sou uma planta
Ninguém me diz, ninguém me canta
Orfa de amor, de tudo que toda a gente tem
Sem perfume, sinta a dor
Entrançada até à garganta
Cor de vinho, cor do sangue
Cresço ao abandono de todos
Será que sou mesmo uma planta?
Quem me dera ter um dia
Tudo o que os outros têm
Ser amada ser beijada
Levada para as nobres casas
Morar em vasos de alegria.

            A Braz


















sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O sem abrigo

 Sem abrigo:
Foi a denominação que ele se atribuiu, com a qual se apresentou, quando me pediu amizade numa rede social. Só ele sabia porquê, o verdadeiro significado, que jamais me revelará, e que me deixou perplexo, sobretudo nesta fase da vida, sabendo eu, que socialmente, se tinha afirmado com prestígio e lavor. Era feliz com a sua admirável família, a qual eu não conhecia, mas que tantas pessoas elogiavam. Vestia mal era a sua escolha, falava com peso no coração, como quem manifesta desagrado, um desalento inexplicável. Não reconhecia o primo Toninho! Porém todo ser humano pode mudar, tem esse direito, e não lhe fazia perguntas. Recordava-me dele enquanto puto, porque vivíamos em casas meeiras, propriedade do nosso avó Manuel, descalço e vestindo uns calções aos quadros, tal como o irmão que a fatalidade de um dia Negro lhe roubou a vida, num acidente estupido. Das dificuldades que a minha tia teve de enfrentar quando o pai os abandonou( mais tarde reconheceu o toninho como filho dando-lhe o seu apelido)…da fome que juntos disfarçávamos junto da fonte grande, ou assentados no tanque que servia de bebedouro aos animais. Mas todos os pássaros aprendem a voar, uns pelos seus próprios meios outros ajudados. No decorrer da nossa juventude cada um de nós seguiu o caminho traçado pelo destino: eu emigrei para o estrangeiro, ele, mais novo de uns anitos, completou pelos seus próprios meios as habilitações requeridas para ingressar na polícia de intervenção. Ainda antes de imigrar para Lisboa Defendeu as cores da equipe de futebol de Rebordainhos, como guarda-redes, com brio, orgulho e paixão, em detrimento da sua integridade física, saboreando com vaidade os aplausos e olhares femininos que de longe o lisonjeavam. Recordo também com grande emoção um ato heroico que lhe podia ter custado a vida.

 Aconteceu na nossa casa de chave, quando a fuga de gaz de uma garrafa se incendiou e nos deixou a todos pétreos de pavor como estatuas. Ele que estava passando, sem hesitar, entrou pela porta dentro, com um pano qualquer desliga a botija do fogão, agarra nela às costas e sai para o meio da rua onde acabou por fechar e neutralizar as chamas, e consequentemente a explosão.
Hoje recebi a triste notícia da sua partida definitiva para o além, fulminado por um AVC. Tão jovem meu deus? Siderado passei a noite a ouvir aquele cântico: - Vale a pena viver… e a interrogação martiriza-me o senso… como um barco à deriva, procuro na terra, o que os marinheiros procuram no mar… emprestam-nos uma vida a prazo, para alguns mais longo outros mais curto,
 , e dentro deste parâmetro, somos todos iguais e tão diferentes! Um Muçulmano tem como referencia, o ALCORÃO, os Budistas NIRVADA, os russos a ORTODOXA, NA China o Taoismo, e finalmente o ateísmo, testemunhas de jeová, reino de deus, todos partem na hora e dia previamente marcado seja qual seja a crença.
Hoje fui ao teu funeral, tinhas apenas 59 anos, e durante o trajeto que me conduziu àquela igreja onde jazia o teu corpo inerte coberto de flores, nos meus ouvidos ressoava interruptamente aquela frase: - Vale a pena viver, por ti só por amor...
Entrei com pezinhos de lã como quem tem receio de acordar uma pedra que dorme para sempre. Não te vi, ocultaram-te, mas os abutres não conseguiram levar a imagem que continua gravada no disco rígido do meu ego. Conheci a tua esposa e filha a quem chamavas princesa, e sensibilizaram-me as frases de agradecimento que ela em voz dolorosa foi prenunciando para os presentes de Parada, Rebordainhos e Amarante. A presença do teu pai e do teu filho humedeceram-me os olhos, mas não chorei por saber que não gostarias. Também estavam presentes quase todos os teus irmãos, que a tua rebeldia enfurecia e as ações amaciavam. Tiveste uma cerimónia digna e merecida, até os salmos foram cantados pela tua ex-cunhada como uma diva. Agora sei que valeu a pena teres vivido, tal como eras, um sem-abrigo.
Descansa agora em paz, Toninho meu primo.
   


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Destinos e destinados


Destinos e destinados
Por António Braz
Após uma lua-de-mel nas Bahamas de quinze dias, com altos e baixos nas relações de recém casados, Carlos e Paula voltaram aos ninhos paternais, enquanto não era posta em cima da mesa outra solução peculiar de independência e discrição, numa vivenda comprada e oferecida como prenda de casamento pelos pais da noiva, mas, o entusiasmo não parecia ter a euforia desejada, porém, para salvar as aparências, Carlos era um ótimo Actor, fingia uma felicidade que não existia no seu coração, e o pensamento voava para a mulher que amava realmente, Júlia. Por sua vez esta secara as lágrimas vivia um dia de cada vez, esperando voltar a apaixonar-se por alguém que a levasse ao altar e a fizesse feliz. Até que se apercebeu, dois meses depois da tragédia que supostamente vinha aí. Todos os sintomas apontavam para uma gravidez, o que vinha metamorfosear todos os seu projetos, ambições, enfim… a sua vida e a de seus pais conservadores que dificilmente aceitariam que se tornasse uma mãe solteira.
Mandou entregar discretamente por uma amiga, uma carta ao Carlitos na qual referenciava o pavor que lhe causava tal situação onde se encontrava sozinha sem saber o que fazer…
A resposta dizia apenas:
A notícia veio retirar do meu peito a ansiedade que me sufocava… é maravilhoso! Um filho teu e meu que melhor notícia podia desejar um moribundo carenciado de amor? Estamos os dois armados para o: “que der e vier”; cuida bem desse bebé.
Também na casa de Sr. Félix para onde Fernanda tinha sido levada e onde vivia desde então, a pedido deste, embora sem precisar realmente, porque tinha uma governanta formada na alta sociedade quando ainda sua esposa vivia, embora já com idade, mas sempre fiel aos seus valores e princípios, tendo-o ajudado como uma mãe, quando esteve quase a tocar o fundo, durante o tempo que durou aquela maldita doença, acabando por a levar sua esposa, ainda jovem e quando ambos projetavam ter uma família com filhos, depois de realizados os projetos profissionais, ele como médico e ela como investigadora cientifica, os factos até então passados a ferro quente, se complicaram, pelas mesmas razões sintomáticas de Júlia, as quais não passaram despercebidas, ao médico que receava a reação da moça quando se certificasse da verdade. Andava pálida, dando escapadelas ao quarto de banho, tentando disfarçar com alegada má disposição… Estavam sentados à mesa os três, como sempre embora fosse uma família abastada, jamais esqueceram que tinham fugido da Bélgica, para não serem presos e levados como o resto da família para campos de concentração perseguidos pelos nazis porque eram “juifes”, em tempo de guerra, quando o médico olhando Fernanda com ternura e em voz afetuosa balbuciou pela primeira vez as suspeitas que recaíam sobre os ombros daquela pobre Aldeã e a carregavam de vergonha;  - tu és apenas a vitima, filha – não te culpes de nada, nem chores porque o nascimento de um filho é a coisa mais maravilhosa que existe neste Mundo! Com minha esposa fizemos projetos que nos traziam tão alegres e felizes, que jamais esquecerei… - e uma lágrima veio inundar-lhe o canto da boca – estou perfeitamente consciente do que te passa pela alma, e te martiriza o coração, porém, sabes que nos tens ao teu lado, a mim e à Josefina não é verdade? Esta será sempre a tua casa enquanto o desejares, e nós a tua família se nos aceitares como tal… também tens a alternativa de ir procurar o pai desse filho e chamá-lo à responsabilidade…
- Ó não. Isso nunca – respondeu Fernanda em voz insegura – o pior vai ser a minha família quando souber?
- Deixa essa parte comigo – retorquiu o médico.
O Sr. Félix conhecia vagamente a família de Carlitos por ter convivido com o pai na Universidade de Coimbra embora em cursos diferentes. Um medicina o outro engenharia. Contudo não exporia o caso já que Fernanda não o desejava. Contratou um detetive privado para ir meter o nariz na vida desse machista, e lhe fosse dando todos os pormenores.

Feliz natal visitantes


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Natal Divino

Natal divino ao rés-do-chão humano, 
Sem um anjo a cantar a cada ouvido. 
Encolhido 
À lareira, 
Ao que pergunto 
Respondo 
Com as achas que vou pondo 
Na fogueira. 

O mito apenas velado 
Como um cadáver 
Familiar... 
E neve, neve, a caiar 
De triste melancolia 
Os caminhos onde um dia 
Vi os Magos galopar... 

Miguel Torga, in 'Antologia Poética' 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Saudades

Saudades
António Braz

 São tantas as saudades que vivencio, de tudo quanto me marcou na vida…quando vejo fotos desbotadas, ou sinto cheiros inodoros;
Quando ouço uma voz, e me lembro do passado, eu sinto saudades.
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem nunca mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do único que me marcou, do desvairo que sofri, da paixão que me martirizou, do desencanto, do beijo que meus lábios secaram, daqueles momentos eufóricos de ternura e loucura.
Sinto saudades do presente, que não aproveitei convenientemente, lembrando-me apenas do passado, e asseverando o futuro…
Mas também sinto saudades do futuro,
cuja reciprocidade provavelmente  idealizado, não será como eu pensava que seria…
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e jamais apareceu;
de quem veio correndo,
sem me conhecer tal como eu sou,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi com sensatez!

Daqueles que não souberam como dizer-me Adeus
de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só avistei de vislumbre!
Sinto saudades de tantas coisas que tive, e de outras que não cheguei a ter, mesmo sendo fortemente desejadas.
Sinto saudades de coisas circunspectas, hilariantes, de fatos e experiencias…
Sinto saudades do meu Husky que alguém me ofereceu um dia, e que tão fielmente me amava, como só os animais sabem fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades de tantas coisas vividas e das que deixei esgueirar-se sem as viver.
Quantas vezes procuro sem saber o quê? Nem onde? Para resgatar o desconhecido sem saber onde o perdi…
Vejo o mundo a girar e penso que poderia ter saudades numa só língua universal, mesmo não sendo poliglota, aquela que usamos no desespero, ou para contar dinheiro, fazer amor, declarar sentimentos fortes, onde quer que estejamos.
Será que tenho tantas saudades por ter encontrado a palavra certa todas as vezes que sinto o peito apertar, às vezes nostálgico, às vezes feliz, funcionando melhor que um sinal vital, quando falamos de sentimentos; prova inequívoca da nossa cessibilidade! Do amor que dedicamos ao pouco que tivemos, lamentando as coisas lindas que nos concederam…


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Destinos e Destinados


Destinos e Destinados
Por António Braz
3ª parte
Rompiam os primeiros raios de sol, na manhã do dia importantíssimo, que os pais de Carlitos tanto ansiavam, por diversos motivos e razões, no Palacete familiar, situado discretamente na periferia do Porto, onde o parque arborizado com diversidade e gosto requintado, estranhava o vaivém de tanta gente, e o ruido dos motores de automóveis alta gama, e as tulipas pareciam fechar-se em “copas”, enquanto no interior o pessoal de serviço comungava da hostilidade sem reminiscências, que é como quem diz: “olho vivo e pé ligeiro”.
No seu quarto, enquanto o costureiro reputado dava os últimos retoques ao smoking junto da janela, Carlitos de olhar fixo no vazio, deixou que vagueassem pelo seu pensamento imagens de um passado recente, e as de um futuro, quem sabe talvez exasperante, de pavor, de amargura, de tudo menos de felicidade porque não amava Paula com quem se casaria dentro de poucas horas. Ponderou ainda durante a noite anterior se haveria uma possibilidade de fugir para longe com Júlia, mas… de que viveriam? E estaria ela disposta a acompanhá-lo, depois de ter sido convidada, oito dias antes, para o seu casamento com outra mulher? O suor gotejava pelo seu rosto vindo repousar na branquíssima camisa junto do laço preto que o sufocava… o nervosismo dificultava o trabalho do costureiro, mas não ousava adverti-lo porque os pais pagavam e muito bem…
- Carlitos, são horas – gritou uma voz feminina no rés-do-chão - a limousine está à espera…
O costureiro terminara o seu trabalho, e para grande perplexidade sua, o rapaz continuava hirto junto da janela parecendo não ver nem ouvir ninguém. Tocou-lhe ao de leve no ombro ao mesmo tempo que balbuciava: - estão à sua espera…
- Como? Ah, sim… vou casar não é?
- Creio que sim, menino.
Desceu as escadas como um morto vivo, sem alento mas convicto de que seus pais só queriam o melhor para a sua vida.
-Estás lindo meu filho! Abraçou-o a mãe em lágrimas, enquanto o pai de braço dado com a esposa, limitou-se a fixá-lo olhos nos olhos como adivinhando a mágoa que perfurava aquele coração jovem, inexperiente, enfim… no fundo não passava de um menino mimado ingrato, que sempre teve tudo e mesmo assim não era suficiente… precisavas de uma lição da vida – pensava para consigo.
Chegados à igreja onde Paula já esperava e desesperava, Carlitos percorreu a passadeira vermelha acompanhado pelo pai sem lançar um único olhar aos convivas numerosos e de olhar fixo nele como quem quer devorar… Só, num canto discreto, Júlia vestia um lindo vestido de seda vermelha, sapatos de salto alto, e um chale preto por cima dos ombros, chapéu com renda que lhe ocultava as lágrimas, mas no coração uma dor que não era de rancor, era de deceção, de amargura porque o homem que ela amava com todas as suas forças ia casar na sua presença com outra. Sabia que não lhe pertencia, e jamais aspirou a ser sua esposa… mas doía tanto!
O cortejo longo de 1 km percorreu o trajeto que os separava de onde se realizariam as festividades, buzinando, e lançando flores, até à Quinta da Ponte do Louro, Carlos e Paula eram marido e mulher casados.