sexta-feira, 30 de setembro de 2022
Menino triste
O MENINO TRISTE
Vi um menino descalço e triste
De roupas sujas, rasgadas
As lágrimas lavavam-lhe rosto
Caindo-lhe dos olhos verdes como as águas
Porque choras menino triste
Perguntei pegando sua mão
Tenho fome e tenho frio … respondeu
Lá em casa não há pão
Perante tão cruel realidade
Que me fez doer por dentro
Com um aperto no peito
Sem saber o que dizer
Peguei o menino pela mão
E lhe dei uma refeição
Dos seus olhos brotavam gotas
Fecundadas pela miséria
Um anjo puro inocente
De olhar doce e cativante
Uma alma que viaja sem maldade
Um ser humano, pequeno e frágil
Vítima da crueldade
Deste mundo atroz infame
Percorrendo aquelas ruas
Com lágrimas num olhar triste
Desconhece a felicidade
E sozinho sofre…resiste
Todos os dias eu corria
No mesmo sítio ali estava
O menino de olhos verdes como as águas
À mesma hora por mim esperava
Quando me via sorria
O seu olhar transparecia alegria
Porque a fome eu lhe matava
E de voz rouca e mansa agradecia
Se cada um de nós estendesse
A mão a uma pobre criança
Deixaria de haver miséria
Passaria a haver mais esperança
Acredito num mundo ideal
Com homens de amor mais profundo
Cuidemos de todas as crianças
Que são o melhor do mundo
Lurdes Rebelo
sábado, 24 de setembro de 2022
OUTONO
Outono
São folhas de seda
Caindo sobre mim
E trazem no ventre
Cheiros de alecrim
São ventos que sopram
Levando consigo
Ternuras carinhosas
Por caminhos que sigo
Oh senhor! De terras bravias
Serras nuas que não são de ninguém
Onde vivem rochas amaldiçoadas
Que foram um dia choradas por alguém
De branca neve vestidas
Que a lua com seus raios de luz faz brilhar
Pedindo, rezando e clamando
Para as andorinhas um dia voltar
Despe-se sem vergonha a natureza
Choram as nuvens no cinzento céu
Tocam os sinos, uivam os lobos
O que terá sido que aconteceu
Porque só as viúvas vestem de negro
E a chuva desapareceu
AB
sexta-feira, 23 de setembro de 2022
Naqueles tempos, onde e quando tudo escasseava, e os meios eram mais que restritos, a imaginação chamou-nos a um canto de rua para nos segredar marchas e o teatro de ruas improvisados. Eramos jovens, porém, dentro de alguns de nós, mexia um bichinho improvisado, para alegrar tristezas que não pagavam dividas, com poucos meios, rebuscados nos confins de lugares sem nome, já sem esperança de um dia voltarem a servir orgulhosos com os aplausos dos numerosos presentes, porque era dia de carnaval e festa é festa.
O elenco prestigioso, que mais abaixo tentarei citar pedindo desde já per dão aos esquecidos, por terem já passado mais de 50 anos, onde já nem a memória de elefante consegue lá chegar, de juventude que ali nasceu, filhos de pobres e de ricos, conhecedores do que o povo gostava para passar um dia bem passado. Os ensaios ocorriam em noites gélidas na casa dos da Eira onde a Aninhas e uma prima de Meles tentavam meter na cabeça de principiantes, junto à lareira que ardia alegremente, cantigas trazidas não se sabe de onde, enquanto o resto dos familiares sumia para não transtornar. Aprendia-se primeiro, e durante muitas noites, a letra e a música, e só depois entrava a cooreografia naquela grande cozinha, de piso irregular porque o tabuado tinha destas manias, ralhando com as colegas e querer subir mais umas que as outras… tropeçar fazia rir ou corar, mas as mestras colocavam logo toda a gente no seu lugar. Saíamos muitas vezes passava da meia noite, e os cavalheiros acompanhavam sempre as donzelas aos seus domicílios.
Ao mesmo tempo a Augusta encenava a sessão de tarde na antiga casa do povo onde se realizaria o evento, tendo como palco dois reboques de trator ornamentados com zelo e gosto, trabalho e esforço dos que consideravam a sua maneira de participar. Assentado no centro um fardado com galões de capitão confecionados com serpentinas e o empréstimo das vestimentas de alguém que estava no exército.
Já repleto de público aguardando as cenas, saíam lenga, lengas cantares e imitações e o povo alegre e contente gostava. Finalmente o ato mais esperado;
Entrei eu vestido de capitão e assentei-me junto à escrevaninha, para formolizar a inspeção de mancebos com capacidade de exercer o serviço militar. Apresentou-se o 1º, o meu irmão Carlos, numa marcha digna dos guardas da rainha de Inglaterra, e batendo com uma bota na outra ao mesmo tempo que fazia a continência de braço estendido e mão bem colada à testa perguntou: Dá licença, meu capitão? Licença para quê? Ir a baixar as calças? Estás a ser inspecionado rapaz e só os fardados estão autorizados a fazer o que fizeste bastante mal. Como te chamas? Vasco ou morcão… respondeu o outro atrapalhado...
Mau? Ou és vasco ou morcão?
O meu pai é vasco, e os meus irmos também.
Então a tua casa está cheia de básicos?
Num é bem assim… também nos chamam morcões, menos as raparigas e a minha mãe que não dava… elas são lambisgoias. Família complicada… ah ah ah! Já compreendi. Marcão… claro. Vamos ao que interessa. Quanto medes pesas e idade? -respondeu sei lá! Olha vasco se te mandasse levantar os testículos o que levantavas? – ergueu os braços, enquanto o capitão balbuciava: de facto sois todos bascos. A cena terminou com podes ir. Seguidamente veio a Augusta com a cena das bolinhas do nariz e cantou-se a despedida tinham passado duas horas.
No prado exibiam-se com cantares e lindas danças a rapaziada das Cabanas, aplaudidas e acariciadas como gente de honra e consideração, antes de começarem as nossas marchas, preparadas no palheiro do Sr. P.e. Dois a dois iam saindo com os seus pares e o mastro ao centro do qual saiam fitas de todas as cores que enquanto se cantava os pares trocavam, desenrolando, ao longo de dez metros, ondeando ao baixar-se e levantarem-se, uma maravilha coreográfica.
Das canções lembro-me apenas de uma desgarrada com a Jacinta onde o cavalheiro (eu) vestido a rigor se dirigia a umã aldeã esbelta e bonita cantando:
Adeus ó minha menina
Peço que me dê atenção Gostava de saber o seu nome
Porque é da minha afeição
Tem uns olhos tão bonitos
que ferem meu coração
Resposta:
Não me venha com essas palavras
Porque é tempo perdido
Ainda não sei namorar
Porque sou muito novinha
Mas o meu nome é Maria E vivo com minha madrinha
- Não tenha medo menina
Por tudo o que me está a fala tudo aquilo que não souber
A madrinha lhe vais ensinar
Dê-me só um beijinho
E comigo vai casar (rouba-lhe um beijo) e ambos saem de cena com os aplausos
O adeus era assim.
Rebordainhos terra branquinha
Ao pé da serra brilhante
Olhas o céu com ternura
E para os pobres confiante
Refrão:
Aqui viemos
Com fé em Deus Senhores e senhoras dizemos-lhe Adeus
Do elenco faziam parte António, Carlos, Moisés, Fernanda, Jacinta, Adília, Mavilde, António Pires, Augusta, Maria Augusta, Pedro, José Maria e que me perdoem os que esqueci
quinta-feira, 22 de setembro de 2022
In dia de sorte
Dia de sorte 54 por AB
Francisco desceu quando ouviu o automóvel partir, furioso por fora e magoado por dentro. Tinha conseguido tudo do melhor que a vida pode dar, com a ajuda daqueles que expulsa, o pai sem culpa nenhuma, e a mãe que o amamentou, lhe mudou as fraldas e o levou ao jardim onde brincou até à exaustão, com outros miúdos aparentemente como ele, até que se começou a revelar a adolescência trazendo na bagagem o inesperado, porque ninguém nasce perfeito.
Naquele mesmo dia, depois do pequeno almoço, saiu de casa depois de beijar os avós, cuja saúde tinha decaído consideravelmente, e lhe martirizava o pensamento provocando o receio que mais tarde ou mais cedo aconteceria. Tentou limpar essa imagem do seu cérebro, e como um perdulário explorador percorreu a quinta de uma extremidade à outra notado pormenores sem relevância coelhos que se escondiam, ratos que brincavam perto da toca, rolas com o seu cantar de adormecer, amoras silvestres que comia em miúdo, os patos e os lfaisans banhando-se no lago e levantando voo sacudindo as asas, o gorjeio dos passarinhos, de todas as cores e tamanhos, o rouxinol que na ponta daquela árvore crescida que parecia querer atingir as nuvens que tinham viajado para outros lugares deixando um azul claro ao firmamento. O paraíso que o libertava da podridão mundana, das invejas e preconceitos, daquele veneno de moer lentamente.
Era meio dia, como o tempo passava rápido! Um criado depois de muito o procurar, veio chamá-lo porque o avô não se sentia bem. Subiram os dois para o cavalo, e em poucos minutos estavam junto do moribundo. Francisco não perdeu tempo, enrola dois cobertores, e com os seus fortes braços conduziu-o imediatamente ao hospital mais próximo, sentindo penetrar-lhe o coração aqueles choros já quase sem alento da avó a quem lhe foi recusado o acompanhamento. - Eu volto para a levar quando o avô estiver entregue nas mãos dos médicos.
Foi imediatamente internado e o primeiro diagnóstico revelava o fulminar de um ataque cardíaco, pelo que foi ligado ás máquinas úteis e sedado com fármacos que em vinte e quatro horas ditariam o resultado. Francisco ajoelhou diante de um médico e com voz trémula pediu que salvassem o avô por amor de Deus… - Fica tudo dependente dessa esperança, nós já fizemos o que nos é possível. Correu para o automóvel e foi buscar a avó desesperada em casa. Quando voltaram, embora debilitado, o doente estava consciente, mas não era aconselhável cansá-lo com perguntas. Assentaram-se os dois em cada lado da cama, segurando-lhe uma mão, como quem não quer deixar partir, e aquele olhar terno vagueava de um para o outro, de onde corria uma lágrima de adeus àqueles que tanto amava. Porém, os médicos reconfortaram aqueles amores com uma notícia, da sua reação aos efeitos medicais. Os batimentos são ainda muito baixos, contudo o seu estado estabilizou pelo que podem voltar para casa, comer e dormir porque deus é grande.
quinta-feira, 15 de setembro de 2022
O por do sol. Por Ab
Quando presenciamos, agarrados a sonhos perdidos, desilusões que perderam o afeto, onde a família era constituída, considerada, respeitada afetuosamente durante gerações, por detrás da serra que vigia permanentemente o grito de uma criança desacorrentada na excisão do cordão umbilical que ligou durante nove meses, a mãe, aquela que lhe deu vida, sofrendo e chorando por amor, e a dor de um velhinho abandonado num quarto de miséria, deitado numa cama que cala as desgraças, com fome e frio, e o desejo de morrer antes de ser comido pelas ratazana, suplicando o Deus crucificado num rosário de penas, que um dia, quando ainda a sua esposa vivia, pendurou na cabeceira diante do qual se ajoelhava e dava graças, antes de adormecer, a pensar já no dia que se seguia. Tinha uma família pela qual sacrificou um viver doloroso, dando-lhes tudo, acariciando-os, nas noites geladas junto à lareira, aqueles cabelos de seda, beijando com suavidade e muito amor os rostos dos netos que lhe pareciam frágeis. Estudavam nas grandes cidades, onde viviam com os pais, desterrados por razões sociais e económicas, porque da terra já não se extraíam centavos para “fazer tocar um cego”. Vinham passar todas as férias com os avós, naquela modesta casa que lhes dava carinho, amor, sustento para o corpo e para a alma, rindo e brincando através de montes e vales onde não havia restrição para a liberdade. Aquele pequeno rio lavava todas as impurezas que traziam com eles e o sol ou a neve fascinavam aqueles cérebros vulneráveis profundamente, enquanto as idades foram aumentando para todos. Começaram aparecendo uma vez por ano, e a demora era de poucos dias. O casal sofria imenso com a ausência daqueles que davam vida às suas vidas. Não era de carros caros e bonitos que necessitavam nem de vindas esporádicas, nem saber que eram engenheiros, médicos ou comerciantes de coisas banais, faltava-lhes o amor e carinho que lhes roubaram, aqueles gritos que faziam estremecer as paredes agora silenciosas e frias. Depois chegou aquele relâmpago de AVC que levou aquela que sempre foi mais que uma companheira, e o castelo foi-se desmoronando, aumentando a apatia a justificação de viver.
As crianças eram agora adultos com febre de grandezas desdenhando lugares e pessoas aqueles que um dia ouviram o grito do seu nascimento da mesma cama que hoje a falta de sentimentos martiriza, moendo lentamente até já não ver aquela pequena luz ao fundo do túnel.
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
Fui ao mar perdi o lugar
Fui ao mar e perdi o lugar.: por AB
O jogo de miúdos amplificado e jogado hoje, permanentemente pelos adultos, no dia a dia, em casa ou nas ruas desertas e solitárias das Aldeias que em tempos acolheram mendigos, e artistas nas artes manuais que foram desaparecendo, (como as notas de 500) dos lugares provisórios onde se instalavam encostados entre duas paredes, debaixo de árvores que levaram com elas estórias cantadas ou recitadas como em teatros de rua, cuja encenação improvisada surgia de uma frase despegada, de um conto improvisado, da penúria e da miséria que perseguia os que nasceram para ser desgraçados, em tempos gelados e famintos, em tardes abrasadoras de verão quando o sol se zangava lançando raios que penetravam os ossos de corpos quase esqueléticos, como está acontecendo em África que ninguém vê nem ouve o choro já inaudível sem fôlego, e o socorro não chega, porque ninguém o chamou, porque foi por todos ignorado, em lugares onde os milhões se acomodam num prurido de desidratados rastejando numa lentidão horripilante para jamais alvejar o que o destino traçou.
Lugar perdido, lugar sem tino. São tantos os cães que anseiam roer o osso e esperam na fila horas de desespero receando não chegar a sua vez, após horas de espera, de barriga vazia, cansaço que as velhas pernas já mal aguentam: cai-lhes a água até aos cantos da boca e não descola os lábios que escondem as gengivas. Engolem em seco e a dor torna-se mais aguda, mas não se queixam. Longe vão já tantas vivencias onde existiram mais baixos que altos, e os sacrifícios eram o pão nosso de cada dia.
Lugar amado aqui te deixo aqui te trago. Ser jovem é a maior prenda do destino. No seu primeiro carro um jovem é rei. Esteja onde estiver, aquela coroa pertence-lhe… foram tão longos os tempos de espera! Tempos intermináveis fechado naquele quarto a estudar até ter dores no rabo, para não dececionar os progenitores, e transportar uma bagagem repleta de sonhos realizados para o viver que o espera. Terá agora mais tempo para dedicar aos amigos, namorar e amar os filhos que vão nascer. A sua família, onde os carinhos e afetos ocuparão aquele vazio que de longe vê florescer a felicidade. Quem nunca passeou nestes jardins coloridos e perfumados terá sido escravo do seu ego. E o tempo passa tão rápido! É caminhando na boa direção que se chega ao destino.
O ARREPENDIMENTO É DO QUE NÃO SE FEZ
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
Cartas de amor quem as não teve? Por AB
A carta que o Alfredo escreveu á namorada dizia assim:
I Maria ando atarantado que nem posso…já pensei ir ao médico, mas a vergonha é tanta! Para saberes só te posso dizer: sabes onde fica Bragança e Vila Real, pois o mal é em Mirandela. Compreendes o que quero dizer?
Resposta: Então seu esfomeado foste às p…. agora sobes a serra e rascas as nádegas pelas carquejas.
II A Maria Rita louça fina a preço barato ia à fonte quando o Tobias carrancudo lhe entregou um envelope de papel fino. Escondeu-o nos seios depois de verificar que não havia por ali olhares indiscretos, e por detrás da fonte do Espinheiro começou a ler: Minha pachorrinha. Li a carta que me mandaste, mas como não entendia népia pedi au casulo para ma ler. Comecei aos saltos quando ele me explicou que aquiescer era aceitar.
III A Paula, já crescida e gorda não cabia nela quando viu passar a mala do correio que um burrito transportava sob uma chuva torrencial que até as orelhas do animal quase chegavam ao chão. Namorava fora com um mancebo de Miranda do Douro, que um dia veio à terrinha entregar uma charrua CB3, e se cruzou com ela num velho armazém, não perdendo tempo para lhe pedir namoro enquanto os familiares não chegavam. Ficou vaidosa como uma madalena, pois não era para todas namorar fora, aceitou imediatamente. Recebeu a 1ª carta dias depois que dizia assim: Estamos tramados com este namoro a tão grande distância. Não podias pedir ao teu pai para ir a bragança que eu tenho lá um quartito alugado para podermos “furnicar” à vontade. A fome é tanta! Como a inocência permanecia anos nas virgindades, a rapariga perguntou ao pai o que era “furnicar”. A resposta imediata foi o cabo da espalhadoura nas costas até partir. Então não queres lavar o louça e já queres f….. vais f….. todas as noites com os potes grandes, ai vais.
IV A Aninhas envolvida na cristandade até ao pescoço, tinha já uma idade avançada sem nunca namorar. Não era bonita e aqueles pelos no queixo faziam fugir os rapazes à légua. Passava a maior parte do seu tempo na igreja a arranjar os altares, os paramentos do P.e e as flores que pedia a uma ou outra na eucaristia do Domingo. O padre já velho beijava-a ainda com ganas de quem quer comer, mas como a fisga estava sempre voltada para o chão, contentava-se com um obrigado lambido. Pouco tempo depois as artroses obrigaram-no a deixar a paróquia e foi para o lar de S. Bartolomeu. Veio um novo e reguila substitui-lo e um dia na sacristia apertou-lhe as nádegas com as duas mãos. Levou uma chapada que quase caia de cu, e dali para a frente a Aninhas só entrava à sacristia se não estivesse lá mais ninguém, Casou já com 40 anos com um mancebo vindo do estrangeiro e ainda tiveram uma filha
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