quarta-feira, 16 de novembro de 2022
Poema de AB
Calem-se os gritos nesse desespero bradar
Abram fileiras aos que de longe vem divulgar
E no silencio deste imensurável calcorrear
Ouvem-se crianças, sem mãe e a sem pai a soluçar
Onde os poetas que tão bem sabem prosear
Não encontram locuções e vagueiam a deambular
Como verdes lagartas em fila atravessando a estrada
Sem rumo nem destino onde pernoitar
Esta poesia em todos nós emprenhada
Serve para quê? Para quando? Ou para nada
Vive impotente sem sentimentos e desnudada
Alimenta ilusões para quem segue vazio pela longa estrada
Para jamais voltar e em cinzas ser transformada
Num silencio medonho onde todos caímos
E tudo calado
E tudo dormindo
Fechem-se as portas
Onde dormia o menino
terça-feira, 15 de novembro de 2022
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Traição 503
O viajante errante, Continuação
João, gastara o dinheiro da venda que o irmão lhe tinha depositado numa conta em seu nome aconselhando-o a terminar o curso, reprimindo-o da péssima vida que o estava afundando cada vez mais, dependente de drogas e álcool, sujo por dentro e por fora, dormindo sobre um cartão de papelão à entrado do metro ou abrigando-se em lugares repulsivos, mendigando sobretudo expressões asquerosa onde surgia sempre – vai trabalhar malandro… O seu fiel amigo de quatro patas, um pastor alemão que imensas vezes lhe evitou graves sarilhos, acompanhava-o velando noite e dia onde quer que estivessem. Chegou a deitar-se junto do seu corpo trémulo quase gelado após ressacas que se sucediam cada vez mais frequentes tentando aquecê-lo e com uma das patas limpava-lhe o rosto de uma barba crescida sem higiene por onde passeavam insetos e a voz do desprezo abandonado pelos que passavam fingindo não o conhecer, com vergonha onde na casa que fora dos seus pais lhe engraxavam os sapatinhos e lhe chamavam o Joãosinho. Já sem dinheiro com fome e sede coberto com um capote esfrangalhado, umas botas comidas pelo tempo, calças esburacadas camisa de marca chique, mas que lhe colava ao corpo imundo, já sem forças para se levantar, pensava na morte terrível que se avizinhava, nos pais e no irmão cujas saudades lhe umedeciam aqueles olhos que tinham brilhado e hoje só viam a noite na escuridão. O cão ladrava e uivava pressentindo a morte, e João ainda teve forças para dizer: - És a minha única família, mas só te posso legar gratidão e carinho….
Do outro lado da rua, enquanto esperava a esposa e a filha que faziam compras no interior um homem presenciou a lamentável situação pormenorizadamente, e tirando do bolso do casaco comprido de um azul escuro o telemóvel fez uma chamada. As pessoas que presenciaram, concluíram que seria para a polícia, porem, um senhor fardado aproximou-se do estranho, e depois de umas instruções, atravessou a rua e foi ter com João. Olá! disse este com sotaque estrangeiro: O meu patrão encarregou-me de tratar de si e do seu cão, acrescentando que fizesse de tudo para que não lhe faltasse nada. Por onde começamos? João ficou atónito, e dirigiu o olhar para o Sr. que o saudou com as duas mãos apertadas. Um estrangeiro com coração de ouro, proprietário das melhores lojas da região.
Se me permite vamos comprar roupas novas nas suas lojas, tomar um banho no seu hotel, calçar-se nas suas sapatarias e barbear-se no seu barbeiro preferido. Depois vamos comer no restaurante preferido já reservado, e só exige uma foto no fim para poder admirá-lo.
E porque faz isso tudo esse homem?
A essa pergunta já não posso responder, mas recomendou-me que lhe fizessem um farnel bem recheado para que não fosse a fome a matá-lo mas você a matar a fome.
AB (continua)
domingo, 13 de novembro de 2022
AB Destinos e destinados 302 por António Braz
Era mais um dia de fim de verão, as folhas amarelavam prevendo que brevemente cairiam mortas, num chão frio, mas a paisagem era primorosa com aquela variação de cores anunciando um outono ventoso com mudanças de temperatura, obrigando
as pessoas a agasalhar-se nas suas casas ou fora. É uma das estações do ano cheia de imprevistos, que dá entrada a falatórios mais ou menos realistas, com insinuações e previsões de despedidas. Ás seis da manhã, junto à vivenda dos Avós de Fernando C estacionava uma ambulância do INEM, e três pessoas dirigiram-se com o porteiro para o interior a passos largos e apressados. Subiram pelas escadas, duas a duas, levando com eles todo o equipamento de socorro, só a cama de encarte entrou mais tarde quando o médico tinha instalado o maquinismo ao qual ligou imediatamente o moribundo que de olhos fechados não conseguia responder às perguntas, com os lábios colados um ao outro.
O enfermeiro interrogava com o olhar o médico o qual brevemente chegou a um diagnóstico
- Crise cardíaca severa, (infarto do miocárdio) opinou o médico, precisamos de conduzi-lo ao hospital o mais rápido possível…
Junto ao leito, banhada em soluços, a esposa de mãos postas e olhos erguidos para a imagem do divino senho, enquadrado por cima do leito rezava em voz trémula e baixa. Fernando C que não tinha dormido em casa, ausências frequentes que o álcool e as drogas, faziam dele um farrapo, sobretudo nesta fase em que a amiga borboleta lhe tinha colocado um ultimato, que tinha de escolher rapidamente entre ela e as fantasias destrutivas com amizades de gangues, onde o dinheiro ardia como palha seca, situação em que colocava os avós responsáveis pela sua educação num desespero constante, tendo já sido obrigados a recorrer ás economias sendo ameaçados e chantageados com a morte da mãe. As empresas foram vendidas, a oportunistas negociantes que aguardam como abutres situações idênticas das quais tiram o máximo lucro.
Antes de lhe faltarem todas as faculdades o avô tinha mandado chamar o notário ao quatro onde foi registado um testamento no qual eram repartidos todos os seus bens, os de um império que se desmoronava como um castelo de cartas. Todos os seus entes queridos tinham a parte que lhes pertencia por direito. Fernando D entrou em casa no dia seguinte, ainda meio atordoado, mas ao reparar nos choros da avó que não tinha fechado olho, sentiu um estremecer e um bater de coração, como se alguma coisa tivesse acontecido naquela casa, Antes de abraçar a avó subiu ao quarto vazio onde dormia o casal e ao vê-lo vazio o coração caiu-lhe aos pés. Voltou a descer as escadas saltando por cima delas, e a pergunta não foi necessária.
O teu avô foi ontem para o hospital em estado critico, provavelmente vai morrer, e tu onde estavas? Teria amado falar contigo pela última vez e tu negaste-lhe o último desejo. Será que o teu coração é feito de pedra?
- Perdão avozinha, - e agarrado ao seu cabelo parecia um touro à solta. Eram tantos e tão grandes os remorsos, que não conseguia orientar-se.
- Não vais vê-lo enquanto é tempo?
- Claro que vou… mas não sei onde está nem tenho dinheiro para o transporte.
-Desgraçado, em que bicho te tornaste?
Pelo caminho do hospital Fernando C sentiu-se um monstro. Ao entrar de mansinho no quarto do avô assentou-se a seu lado inundado em lágrimas enquanto lhe apertava uma das mãos. Depois passou os seus dedos por aquele rosto meigo e enrugado enquanto mentalmente pedia perdão. Estava a beijá-lo na fronte quando uns olhos meigos, ternos, e cansados se entreabriram, e os lábios ressequidos perguntaram com grande dificuldade:
- És tu meu ilho? Não temos muito tempo para falar, mas queria que soubesses que te amo muito e a tua avó também.… não deixes que lhe falte nada, prometes?
-Fernando estava arrasado, e as palavras demoravam a sair.
- Promete meu filho, porque eu vou partir brevemente e só assim partirei em paz. -Claro que prometo… mas não nos deixe por amor de Deus…
O homem voltou a fechar os olhos para nunca mais os abrir, esperou pelo neto lutando até ao último suspiro.
sábado, 12 de novembro de 2022
O medo tentou raptar-me.
Levou-me por caminhos incertos. Mostrou-me os espinhos e escondeu as rosas. Quis-me fazer acreditar que a Primavera não iria voltar e que eu estava definitivamente condenada a sofrer.
O medo convidou-me para conhecer o lado oposto da vida. Roubou-me o sol e disse-me que na escuridão tudo era mais perfeito.
Atordoada segui-lhe os passos sem compreender que não estava a caminhar. Com ele só poderia retroceder ao que não queria voltar a viver. Ele queria impor as suas regras e mudar quem eu sempre fui por vontade própria.
Apagou-me o sorriso dos lábios. Riscou a palavra felicidade do meu dicionário.
Aceitei ser refém dessa sombra para que ninguém visse o tormento que me perseguia. Não queria que vissem a cor da minha mágoa, nem sentissem o cheiro do meu sofrimento.
Fiz essa viagem ao fundo do abismo. Quis acreditar que o mundo era um inferno em chamas e que sofrer era a forma certa para viver. Quis perder-me no meio da escuridão para não ver o que está à minha volta.
Só que a meio do caminho senti o cheiro do amor. Vislumbrei as pétalas de uma rosa por entre os raios do sol que não obedeceu às ordens do medo e continuava ali a iluminar os meus dias naquela floresta negra onde andava perdida.
Chamei pelo amor, indiferente ao olhar ameaçador do medo que me queria calar a todo o custo. Chamei por mim e pedi de volta todos os meus sonhos sem querer saber se o medo iria ou não aceitar esta minha decisão. A vida era minha e ele era apenas um intruso que estava a virar do avesso a minha realidade.
O medo quis raptar-me, mas o amor ensinou-lhe que num coração com sentimentos quem manda é ele. Expulsou o medo da minha vida e comecei a viver de braço dado com a alegria que o amor me mostrava, desenhando linhas por onde deveria caminhar se quisesse continuar a sorrir.
O medo retirou-se contrariado, mas ninguém lhe deu grande importância. O foco era viver e sentir a vida a cada momento e essa é uma dança que o medo mão sabe dançar.
@angela caboz
quarta-feira, 9 de novembro de 2022
Esta foto não é deste ano
Os dias começam a ser longos e frios acabaram-se as cavaqueiras e as paredes das casas já não ouvem murmurar. Choram as telhas num silencio de dor, rasgam-se nuvens ainda em flor, fecharam-se portas que abrigaram tanto amor. Dentro já não mora ninguém, as ratazanas constroem seus ninhos sem projetos nem licenças, andam de um lado para o outro num granjeio de patrões sem medo dos gatos que também já não vem. Meu Deus, porque me abandonaste? Um grito de cristo pregado na cruz, já sem timbre na voz, nem alento que significa estarmos sós, abandonados e tristes como avestruz, sem pernas sem asas e a vista que nos falta, gelados com frio quando chega a madrugada, em camas de desespero que já não podem nada lembrando-nos o tempo em qua a vizinhança falava, e até comentava cenas de filmes que tanto nos agradava.
Ó terra de tantas lembranças amontoadas fugitivas, das quais não resta nada. Ó tempo malvado que tão cruel tens sido, abrasas no verão, solta-se o vento que queima tudo o que é alimento. Se é à fome que nos queres matar, sem argumentos para julgar, que essa corda medonha se enrole aos nossos pescoços, e juntos tremendo com medo da morte, leva-nos ao mar para que possamos anelar. Se estamos condenados pelo destino pela nossa hora esperar, leva conforto esperança e carinho, àqueles que no seu miserável ninho, não tem com que falar, nem meios para aquecer os pés e as mãos ao anoitecer, e a fome por dentro a roer. Neste desespero medonho ajuda-os a ter um lindo sonho, ainda que seja uma só vez porque a solidão é tão cruel, mas o carinho doce como o mel.
AB
Tempo de castanhas que este ano será um verdadeiro desastre para os que esperavam uns tostões amealhar e que infelizmente as temperaturas de verão não permitiram. Toda a produção de alimentos foi afetada, os preços de compra dobraram e triplicaram, combustível energia, é um ano para esquecer aqueles que subviverem. Melhores dias virão e esta gente não é de atirar a esponja. Também a azeitona outra fonte de rendimento se ficou pelos 20% resta encontrar solução para colmatar.
AB
sábado, 5 de novembro de 2022
Será que o meu dia chegará? AB
Pobre de mim desgraçada nasci em tempos degradada, despida descalça e mal-amada servindo só para ser pisada e talvez ainda enxovalhada, pelos que para estas bandas não tem nada sem sabem o que é uma estrada. Vivi já tantos anos com a esperança e o desejo que já me cansa de um dia ter o condão de entrar em Agrochão, toda de azul vestida com cheirinho a alcatrão. Tantas promessas que o vento varreu, de cabeças ocas do que nunca foi seu e com mentiras sempre prometeu, reunir-se com o colega para debater as razões porquê seis km tem tantas obstruções ou serão as más informações que tão deprimida me vão deixando, esperar, mas até quando? Quem espera desespera onde se instala a quimera, por chegar mais uma primavera, após um horrível inverno, coroado de intempéries o malvado, deixando sobre mim tudo encharcado, e de ossos à vista e carne desfeita, banhados em lama da esquerda à direita, poças cobertas de água, bermas invasoras cobertas de mato, sou só um caminho que não vale nada. Os meus lamentos fundamentados, entram em escritórios onde estão confortavelmente assentados, seres sem dor nem compaixão cabendo-lhe apenas na mão, o poder de decidir, ponderando brevemente, se deve calar-se ou agir. Se não desejam que pertença ao concelho, cortem a entrada a saída e o meio, retirem dos que ainda alimentam ilusões, a traição dos corações e formem justas opiniões de um eleitorado democrático, cuja balança pende sempre para o lado dos burlões, dos graxistas e dos “mamões”, porque quem por aqui vive e passa, paga todos os direitos e a taxa, dos que tem podem e querem.
sexta-feira, 4 de novembro de 2022
O caminho
Caminhava na lentidão prescrita para idades e momentos, acompanhado pela esposa, num esboço de ave consternada, num impulso de cobiçar muito para além do que podia esperar, era meu primo cuja afinidade foi sempre como o antigo muro de Berlim, tinha oito ou dez anos mais que eu, e abalou para outros horizontes quando eu era ainda um “puto” pelo que não tomei como insólito a fato de não me reconhecer. Esperei na beira da estrada, que no passado foi caminho de lama e pó, por onde se efetuavam grandes corredios para apanhar o comboio a vapor a quatro quilómetros de distância, e quando lhe tendi inocentemente a mão par o cumprimentar, não fui correspondido o que me deixou confuso numa perplexidade embaraçosa. Sou filho do teu tio o…- incrível! Responde ele num tom de voz consternado observando-me dos pés à cabeça como um forasteiro que jamais tivesse visto. Como as pessoas ficam desfiguradas! – Disse ele em voz baixa. Acompanhei-os mais alguns passos, sem mais perguntas nem respostas… iam assistir à misa de todos os santos, passados três anos, procurei-o por entre os presentes na igreja, em vão. Na minha mente surgiam constantemente aquelas poucas frases que trocámos, caminhando ou empurrados por um vento que rapidamente passa e gela, transforma e leva consigo, para lá das serras, dos lugares e das pessoas, transformadas em pó, já sem linguagem nem pernas para ainda caminhar, ao som das trombetas, dos sinos que repenicam, de mais uma peça que se retirou do puzzle, em silencio, com dignidade.
Familiares que nunca fomos, amizades passageiras de um dia, um mê ou alguns anos, que bruscamente o nefasto realça, quando já o interesse atravessou para o outro lado aquele rio sujo, encontrando o que sempre procuraram, desejos falsificados, promessas imersas no fundo de um saco com eles trazido onde tudo, até as mentiras, foi metido. Vamos neste dia mostrar, e perante os numerosos presentes lacrimejar até as costas voltar deixando para trás tormentas e dor, representadas por cada flor. Vasos lindos para inglês ver, perfumes que acabam por desaparecer. Enquanto vivos foram esquecidos e desprezados, de todos os seus bens despojados e com lindas frases encaminhados para asilos de velhos onde são deixados, que as suas reformas vão pagando, nunca sabe até quando aqueles meigos olhares na parede fixos, e que á noite nos seus quartos isolados, acordam de manhã de pés e mãos molhados. Nunca mais poderão chorar, nunca mais voltarão a amar, tantos anos se perderam, noites à vela sem poder dormir, pagos com moedas de desilusão das quais também um dia eles receberão. Quem é a tua família? Perguntar-lhe-á um gaiato, que desaparece neste mundo ingrato AB
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