sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O GRITO DO DESPREZO

                                                                           O grito do desprezo Por António Braz 
                                                                           
O egocentrismo adentrou um povo cuja prioridade, eram supostamente, os ensinamentos divinos resumidos ao: amar o próximo como a si mesmo. Somos uma população egoísta, suja que não presta, ainda que tentemos invariavelmente demonstrar, com cinismo, o oposto que é prosaicamente o que melhor se acomoda nestes corações de pedra fria sem respaldo.
Nasceu pobre, desamparado, fraco, vulnerável, escondendo-se para morrer como um cão abandonado, num recanto mórbido ao som das risadas traiçoeiras, recatado dos olhares que lhe penetravam a alma com julgamentos repulsivos, apenas e somente porque se refugiara no alcoolismo, quem sabe para esquecer o quê? Havia festividades na terra, alegria, mesas fartas, vestimentas novas, dançava-se e cantava-se bem perto de onde jazia o seu corpo estiraçado num miserável colchão. Quando mais precisou à sua porta ninguém bateu… os vizinhos assavam os leitões, preparavam o festim enquanto o seu corpo arrefecia lentamente sem lamúrias, nem sequer uma lágrima perdida na solidão de um lenço de papel! A sua falta nos locais habituais não despertou a curiosidade de ninguém, porque para nós ele não era ninguém… um vagabundo que não pediu para nascer, mas que nasceu num monte de palha, filho do (taleigo) que predestinado tão triste! Todo ser humano merece respeito, consideração, independentemente do que a vida lhe infringiu. Na nossa consciência pesam outros caso, um idêntico ao dele: 

Também a Judite ficará para sempre no meu pensamento como uma mulher que apesar de um pequeno grau de deficiência, e diabética, foi encontrada nas mesmas circunstancias,  morta  na sua casa esburacada, quase sem telhado, à fome, à mingua, perante os olhares de gente que não presta; São capazes de dar e mesmo levar a casa dos ricos em troca de favores, ficando indiferentes a casos carentes. Comungam todos os dias, fazem o que o Pe. diz mesmo que requeira os maiores sacrifícios, vão à missa vão ao terço, às novenas aos convívios da hipocrisia. Não, casos deste não existem apenas nas grandes cidades onde a maioria dos sem-abrigo se refugiam… aqui, em Murçós, para aqueles que acredita, anda o demónio à solta. Somos nós.
Falei com o Zé pela última vez na quinta feira. Estava sentado junto de uma casa em ruinas, supostamente saboreando a sombra…- Então Zé que tal?
- Olhe… - respondeu-me com a dificuldade de expressão que lhe era peculiar. Hoje martirizo-me pelo facto de não ter aprofundado a conversa pois teria por certo chegado à conclusão de que tinha fome e cariciava ser visto por um médico? Só foi encontrado na Segunda feira sem vida e o corpo em decomposição avançada. Ninguém merece ter um fim tão triste e tão desprezado.
Chau Zé Foi para ti que a minha vela se manteve acesa durante a missa campal e até que a cera se esgotou

O funeral realiza-se hoje às 17 horas
Descansa em paz


terça-feira, 14 de agosto de 2018

No cais...

No cais         Por António Braz 

 Um ego complexo e indefinido pode arrastar-nos por mutáveis suscetibilidades marcantes. À minha memória vulnerável afloram permanentemente pontos de interrogação mantendo-me preso a uma corda de nós-cegos, ultrajada, amputada, e ao mesmo tempo complacente com numerosas pontas soltas. – Nascer em qualquer lugar – Cantava Maxim le Forestier revoltado com a existência do racismo, xenofobismo e tantas outras injustiças propagadas e consumidas por esse mundo fora… e acrescentava: Não se escolhem os pais» Não se escolhe a família » Nem os passeios de Mallie » de Paris ou de Algés »para aprender a andar… Nêtre quelque par
Descalço, roto e com fome, percorria o puto aquelas ruas enlameadas, cobertas aqui ou além, por folhagens de carvalho, castanheiro, ou palha, radiante como se lhe estendessem o glorioso tapete vermelho, e no silêncio entranhado, surgia a perplexidade dos sonhos que tivera durante o tempo que dormiu tão profundamente: Tinha crescido; começava a ver as diferenças. Passava-lhe pelos lábios um sorriso lacónico, e de cabisbaixo saboreava o ruido das folhagens pontapeando-as; desejava tão profundamente que permanecessem no ar eternamente! Quem teria escolhido por ele para nascer naquele lugar sinuoso, sombrio,
 repleto de ceticismo? Como as noites lhe gelavam as entranhas e os dias afuguentavam o raquítico fragmentado na vã tentativa de agarrar com as duas mãos o que se esgueirava como enguias em ribeiras frias e cristalinas… Durante a escolaridade primária foi apenas dono e senhor de uma simples ardósia comprada por uma coroa na taberna do lugar. Porém, com a inteligência e boa vontade, foi lecionado, concluindo com distinção os quatro anos sem percalços nem interrupções. Temia o emergir futuro e revoltava-se contra a nebulosidade que emergia no horizonte. Brincava e jogava com os putos da sua geração; aprendera a nadar em pequenos tanques de água que servia para regadio tendo passado por múltiplas dificuldades impostas pelos mais idosos pouco complacentes. O nudismo chegara até eles pela força das circunstâncias, não havia fatos de banho… Presenciou e assistiu impotente, durante uma tarde de banhada, à violação de um puto mais novo que ele, obrigado e tão indignado que pela primeira vez na sua vida sentiu vontade de matar aqueles algozes que riam e troçavam, praticando este ato horrível um após outro enquanto outros neutralizavam a vítima.
Lutou intensamente contra a perspectiva  de ver os seus colegas voar para novos horizontes onde poderia morar a felicidade e a prosperidade, e ele continuava ali, naquele cais, hirto como uma estátua, a ver passar os comboios que não paravam para ele poder subir. E sentiu o peso da dor, mais pesado que a fome ou a sede, o desprezo e o abandono, pondo em causa os valores e princípios que tanto prezava, duvidando da doutrina que aprendera e dos ensinamentos dos quais apenas beneficiavam os privilegiados…Nascer em qualquer lugar 
Texto de António Braz e 1 fototo outra partilhada

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Afetos


Afetos                                                                                Por António Braz Pereira
Maio desbotado desabrochava na vastidão de afetos lépidos e ao mesmo tempo indigentes enquanto a luminosidade de raios solares penetrava pelas paredes de granito esburacadas fixando-se no soalho roto, perante o deleite das ratazanas no recôndito predileto de uma casinha de dois compartimentos, um deles assoalhado e abastardado, o outro térreo manuseado ao jeito de cozinha onde o renomado “lançadouro”  pútrido pelo uso e pelo tempo, e enfeitado com jornais  rendilhados  magistralmente para dar um ar de alegria e felicidade inexistentes  ou talvez para engodar o ego? Uma lareira veemente acesa e rodeada pela filharada e alguns familiares, incluindo a parteira, que vieram para o nascimento. A grande porta de madeira corrompida abria-se e fechava-se dando passagem às velhas mulheres que ajudavam no parto num vaivém acentuado pelo trepar das “socas” e saias de cor preta carregadas até aos pés, e de rostos amarroados como se se tratasse de um enterro. Finalmente, na solidão do firmamento e no silêncio abstrato dos que dormitavam soergue-se um chorar infantil determinado e voraz, surpreendentemente como se ninguém o esperasse. Era um puto! Teria havido manifestamente alaridos e sorrisos largos por ser um macho depois de três fêmeas, supostamente; porque na realidade dos factos, era a quarta boca a comer numa casa onde faltava o pão para cada dia, e os dias eram tão longos! … E o puto dias depois decidiu adormecer, tal como num coma barbitúrico, durante mais de 48 horas, sendo chamado o padre para o sopear por não ter sido batizado, considerando a morte deatilada. Renasceu antes de fincar com um berro de revolta, e só onze anos depois foi registado como cidadão português e os nomes que lhe foram atribuídos tiveram recusa absoluta, sendo os progenitores obrigados a escolher outros que deveriam ter sido: o indesejado.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Pontos e paragrafos


Quisera eu, e até almejara, narrar, com a maior das simplicidades transeuntes, um viver ríspido, repleto de sonhos efêmeros, de amores platónicos, de flirts desvairados na imensidão das estrelas brilhantes, ou então recordar com veemência desmedida, lugares ditosos, bênçãos poderosíssimas, alacridade de feitiço esporádico, gestos embriagantes que o silêncio profundo absorve, na timidez da aproximação dos teus lábios ressequidos pelo desejo, enquanto testemunhavam o lacrimejar de uns olhos cor da paixão esvairados, e o pelejar do coração n’um ritmo desenfreado; e o tempo que se nos esgueirava por entre frestas que ambos tecíamos recatados, contentando-nos com o remanescente! E aquela maldita frase destroçadora… - Porque serei eu tanto do teu agrado? – Ostentasse responder objetivamente num frenesim vencido pela mentira, na cegueira do orgulho, na humilhação da questão, no despeito ou na honra, que finalmente sempre me mergulhava num silêncio impotente, por vezes subversivo, mas tão marcante quanto as sequelas de um martirizado. E os anos foram passando deixando na zaga um oceano de pérolas nem vivas nem mortas, esperançadas com petulância pela adversidade divergente, ingrata, cupidez em britar abandonando os principais valores murais.                                                                                                                           Quisera voltar atrás no tempo, ainda sem máscaras nem preconceitos, eramos ambos dois miúdos, e reviver de novo, magicamente, aqueles anseios cativantes de pureza, ingenuidade, e ímpeto, nos encontros marcados por um gesto, um olhar, ou simplesmente atraídos por o possante íman programado para manter-nos unidos até à eternidade porque só se ama uma vez. Por: António Brás Pereira texto e foto.                     




segunda-feira, 9 de julho de 2018

A Matança

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

O acto da matança será barbaresco para os defensores dos animais, mas era útil e necessário para a sobrevivência nos meios rurais, sobretudo quando o talho mais próximo se localizava na capital de distrito, a uma distância de vinte e seis quilómetros, quatro deles percorridos a pé, por carreiros de terra batida, até chegar à estação de caminhos de ferro onde o Sr. Azevedo, por duas coroas, passava o bilhete que dava acesso ao comboio a carvão, (mais tarde automotora) que demorava mais ou menos uma hora para chegar à cidade. Tempo e dinheiro gastos para comprar carnes que, ao fim e ao cabo, também eram abatidas por alguém, não justificavam que se não fizesse a matança.

Enquanto puto, a matança do porco, em Rebordainhos, era, para mim, um dia de alegria, abundância e harmonia. Em se aproximando o Natal, o porco entrava na engorda e passava a ser mais mimado com castanhas descascadas, batatas e centeio granulado, cozidos num grande caldeiro posto sobre a lareira que também era aproveitada para encostar os pés molhados e, até, as roupas vestidas que fumegavam como quando se cozia pão! Nesta altura, porque o frio apertava mais e as geadas deixavam vestígios nas poças e tanques de água, o tempo adequava-se à conservação e, por isso, marcava-se uma data, quase sempre aos domingos, para o dia fatal do animal.

A diferença que existia entre as famílias remediadas e as pobres, como noutros aspectos, também se notava neste. Primeiro, pelo número de convidados e, depois, pelo número de animais: de nenhum a três.

Certo Janeiro fomos convidados para casa do tio João Santo que matava os seus três porcos. Saí de casa bem cedo e nem esperei pelos demais familiares – eles sabiam o caminho e, além disso, mal tinha cerrado olho durante a noite

ansioso pelo amanhecer. O dia estava frio e gelado e, de noite, tinha caído uma camadita de neve. Passei diante das poças da Fonte Grande e do Espinheiro cujo gelo, apesar de convidar à patinagem, me deixou indiferente, tal era a apressa de chegar. Mais adiante, perto do pelourinho, dirigi-me para a rua que dava acesso à casa do Bagueixe, com a intenção de passar pelo atalho que desembocava, direitinho, nas escadas do lado da adega, as quais me levariam directamente ao destino. Ia avançando lentamente, escorregando aqui e ali, quando, da Casa do tio Leque, que mantinha a porta fechada, ouvi chamar:

Ó Bagueixe, tens muitas mulheres?...

Como não obtivesse resposta do vizinho cujas paredes eram meeiras (e a comunicação se fazia através dos buracos que nelas havia ou, então, pelas janelas que eram próxima uma da outra), repetiu a mesma pergunta, levantando ainda mais a voz. Do outro lado, em resposta, ouviu-se uma blasfémia acompanhada da seguinte frase:

– Tenho as mulheres no…
– Pois olha, diz o Leque, cornos não te faltam!
– Raios partam o homem que é maluco como os carros!... Não se pode estar sossegado na cama!

Levantando-se em ceroulas e camisola de flanela, o Bagueixe foi direitinho à janela e, mal a abriu, viu à sua esquerda o outro, debruçado sobre a sua, a rir às gargalhadas enquanto apontava para as telhas das quais caíam, longos e cristalinos, muitos candeolos de gelo. Ficaram os dois tagarelando por mais algum tempo, enquanto eu, receoso de perder o mata-bicho da matança, corria para a grande cozinha do tio João Santo.


A mesa enorme estava repleta de presunto, bacalhau passado por ovos, figos e nozes secos. Também não faltava a garrafa de aguardente, queijo e café migado. Alguns convidados esperavam, já, sentados no escano. Junto da 
grande lareira estavam dois potes grandes, um destinado à canja onde uma galinha velha cozia durante horas; o outro, para o arroz do almoço. Todas estas tarefas caseiras eram entregues às mulheres que iam buscar o fígado fresco para refogá-lo. Outras três ou quatro, porque era necessária água corredia, iam lavar as tripas lá para as Ribas, Fonte da Vila, ou mesmo à Ribeira. Voltavam geladas dos pés à cabeça.
Os homens, após o mata-bicho, preparavam-se para enfrentar os bichos. Alguns eram grandes e fortes que nem toiros, razão pela qual eram os mais jovens com “cabedal” e os trintões pujantes os primeiros a ter que arregaçar as mangas. Não podendo deixar transparecer o receio que lhes ia na alma, um após outro, lentamente, com alguma apreensão, iam-se aproximando da porta, por detrás da qual, o manso animal se transformava em fera brava, como que adivinhando as intenções daquela quantidade de homens. O Matador, com grande experiência, visto serem raros a possuírem coragem e saber, entrava na loje logo depois do primeiro homem, que levava uma corda na qual fizera um laço. Logo atrás vinham os mais corajosos: dois deles deitavam as mãos às orelhas do animal, para este abrir a boca onde era introduzido o laço da corda que lhe prendia o focinho, fixando-a nos caninos do animal. Conduziam-no assim para a rua e, a partir daqui, numerosas, engraçadas e verdadeiras passagens podiam ser contadas. Nesse dia da matança do tio João Santo apenas aconteceu que, enquanto alguns agarravam o terceiro porco (pesava duzentos quilos, limpo), parte dos homens preparavam-se para a chamusca do segundo que… pega a correr pela canada da casa do Ferreira e só parou no lameiro do tio António Trocho, perante a estupefacção dos que presenciaram a cena, mais o gozo do tio Leque que gritava às gargalhadas:
– Agarrai-o! Agarrai-o!... Ó Bagueixe, o Santo só chama gente fraca para a matança! …
– Chegavam-lhe os dois que ficaram; a esse fazíamos-lhe nós o fado, respondeu o outro.

Enquanto se fazia a preparação dos cevados sobre bancos largos e resistentes, os garotos costumavam cortar o rabo, prepará-lo e assá-lo nas brasas com duas areias de sal.

A quem não passava despercebida qualquer matança, era ao Hermínio Russo nem ao seu colega, o Carlos Chiote. Começavam por rondar o local quando os animais estavam em fim de preparação e, aproveitando qualquer distracção dos matanceiros, puxavam da peliqueira afiada e cortavam um pedaço magro, junto da espádua e iam, depressa, assá-lo. Nesse dia, era em casa do Bagueixe, de mecha com eles.

De porta fechada, os três comparsas preparavam-se para petiscar, assando o isco nas brasas, com sal e um pedaço de malagueta. Mas o tio Leque, malandro como as raposas, tinha farejado já qualquer coisa, para além do fumo que lhe entrava pelas narinas. O Bagueixe saíra com uma garrafa de quartilho e meio, vazia, nas mãos e voltara momentos depois com ela cheia…

– Cheira-me a comeninzana! … Mas introduzir-se em casa do Bagueixe não era tarefa fácil, sobretudo porque não devia estar só. O Leque precisava de arranjar uma artimanha!… De repente, lembrou-se das bombas que sempre guardava em casa: – E vai ser uma dos foguetes que bota muito fumo e eles são obrigados a abrir. Meu dito meu feito: um grande estrondo, fumo a sair pelo buraco do gato… e os três perto da porta aberta, tossindo, enquanto rogavam pragas ao engenhoso e desenrascado homem com quem foram obrigados a partilhar o quinhão!

– Tende lá paciência, mas nem o pão posso trazer… não o tenho!

Só se almoçava depois de terminados todos os preparativos. Os cevados eram pendurados de cabeça para baixo, para que as geadas lhes dessem a forma adequada. Os muitos convivas sentavam-se à mesa repleta de chouriças, alheiras, presunto e pratos variados. O convívio prolongava-se por todo o dia e os mais idosos só voltavam para casa à noite e, por entre o pipo do vinho e o estômago bem recheado, vinham ao de cima discussões que, por vezes, aqueciam. Nesse dia não pude esperar pelo fim porque eu, o meu primo Tarcísio e o Pintassilgo fomos com as vacas para a Galiana, onde me pus a jogar à queda com o Pintassilgo. Resultou num braço deslocado e no pedido ao Sr. padre João que me levasse a Paçó onde havia um compodor de ossos.

É sempre agradável recordar o dia das alheiras que era um festim, o encher das chouriças (e os bocadinhos a assar e cair na cinza), dos palaiotos (impressionantes aquelas tripas do intestino grosso cheias de massa, e até a bexiga redondinha, fazendo inveja aos jogadores de futebol). Também havia os butelos, que os novos mal conhecem, enchidos com carne e ossos e, quando abertos, depois de cozidos e tostados na lareira, acompanhados com grelos, eram uma delícia por alturas do Entrudo.



quarta-feira, 30 de maio de 2018

Terras nossas

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA
                                                                           Dedico o meu texto aos filhos de Rebordainhos já falecidos, e aos seus entes queridos vivos, que não puderam visitá-los no dia dos Fiéis Defuntos.

O convívio, entre a população, apesar das diferenças sociais e financeiras existentes era, aparentemente, cordial. Só na aparência porque, na realidade, os pobres eram os que sempre vergavam diante dos que possuíam abundância alimentar, bens ou títulos, uns herdados, outros adquiridos pela labuta constante, árdua e ambiciosa.

Se sondássemos os agregados familiares de Rebordainhos, estes poderiam dividir-se em três categorias: abastança, remedeio e necessidade. Nestes, o provérbio, “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, manifestava-se como uma evidência. Era uma luta constante pela sobrevivência, tendo em conta os magros meios que o destino impunha. Alguns submetiam-se; outros escolhiam o inconformismo; uns eram optimistas e outros pessimistas.
Havia os bons e os maus pais de família, todas elas numerosas devido à falta de meios contraceptivos, sem esquecer a grande influência da religião católica. A concepção de filhos era um automatismo. A submissão da mulher às obrigações de esposa e às exigências incontestáveis dos maridos, muitos deles machistas todo-poderosos, incontroláveis quando à noite, já tarde, voltavam a casa, embriagados e sem um tostão nos bolsos, após longas horas na taberna a jogar e beber copos de vinho, alheios aos sentimentos inerentes ao dever de pais. Revoltados e inconscientes, agrediam os seus: à esposa, fisicamente, com pancada forte; aos filhos, moralmente, pois viam-se chorosos, com fome, e impotentes perante tal besta feroz e capaz de tudo. Estes filhos, por força, haveriam de guardar sequelas e traumatismos para o resto das suas vidas.

Eram essas humildes e dedicadas mulheres que carregavam e transportavam todas as culpas e responsabilidades. Ainda que inocentes, era sobre elas que caíam todas as injustiças e a elas é que era apontado o dedo da vergonha e do desprezo. Muitas foram mães solteiras, com seis, sete ou mais filhos, de variados pais incógnitos, como narravam naquele tempo as certidões do Registo Civil.
Vivia-se num País onde vigorava a lei do mais forte, do mais poderoso; onde os pobres só tinham direito ao silêncio, ao conformismo, à submissão, ao trabalho duro e penoso em troca de um pão de centeio ou de uma cesta de batatas que, à noite, levavam para casa, orgulhosos e felicíssimos por terem algo para matar a fome, pelo menos aquela noite, aos filhos numerosos …

As grandes propriedades pertenciam à classe das casas de “abastança,” que se contavam pelos dedos de uma mão. Vinham por herança, mantinham-se pela persistência no trabalho e acrescentavam-se por compra ou penhoras. Quantas terras penhoradas não puderam ser resgatadas por falta dos 10, 20, 30 ou 50 escudos impossíveis de amealhar! Certas casas, outrora fartíssimas, chamadas “grandes”, arruinaram-se por falta de empenho, zelo e coragem para gerir um trabalho árduo, consistente, embora avassalador. Os pais desleixavam-se, refugiando-se nos jogos e nos copos de vinho bebidos nas tascas, voltando para casa já a noite ia avançada, embriagados e mais endividados ainda, com dívidas que sabiam jamais poder pagar. Esta herança deixada aos filhos contaminou-os, e a maior parte deles seguiram os mesmos caminhos tortuosos de que só se arrependiam nas poucas horas que dedicavam à reflexão. Na sua dependência, o copo de vinho e a batota eram mais apetecíveis, de acesso livre e muito fácil. O choro das esposas e dos filhos já não os comovia, a violência transportava-os ao de lá do auto-controlo emocional, moral e físico, violência sem remorsos, por isso, sem remissão. A questão das dívidas teve, ao longo dos anos da minha lembrança, graves consequências no seio de uma população carenciada e dependente, encaminhada para a delinquência: furtos, assaltos à mão armada e, até, assassínios.

Ser pobre não significava, apenas, não ter nada; era também o desprezo, o abandono, a indiferença, a morte provocada por qualquer doença, ainda que fácil de curar. A doença era pior quando batia à porta daqueles que não tinham um tostão nem conhecimentos nas hostes da saúde pública, como foi o caso daquele miúdo que morreu à mingua, dia após dia, com uma broncopneumonia, por não aparecer no seu caminho uma alma bondosa que o levasse ao hospital, onde a administração de penicilina e dois ou três dias de repouso lhe teriam salvo a vida. Tempos depois, assim já não aconteceu com outro rapaz, com menos dois anos de idade, mas de família privilegiada, que foi salvo. Aos meus ouvidos, e durante toda a minha vida, soarão os gemidos daquele mártir, pedindo socorro! No coração, terei sempre a repugnância pela discriminação social!

No bairro de à Chave não havia ricos e, entre os moradores, existia uma cumplicidade de entreajuda e solidariedade. Também eles se contavam entre os jeireiros, contratados segundo as suas competências: coragem, fortaleza e dedicação para segar os fenos ou o centeios, arrancar batatas, etc., enchendo os palheiros, tulhas, cilos ou adegas daqueles que, tendo mais, poderiam vender o que lhes sobrasse.

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frases de Ben Zoma (04:01 Pirkei Avot)

" Quem é sábio?" - A pessoa que aprende a partir de todas as pessoas...

" Quem é poderoso?" - Aquele que domina a inclinação para o Mal...

" Quem é rico?"- O que se alegra em sua Parte...

" Quem é honrado?"- Aquele que honra os outros seres humanos...


sexta-feira, 11 de maio de 2018

A sentença de salomão

 A sentença de Salomão
Salomão sentenciou usando astuciosamente uma ratoeira às duas mulheres que pretendiam ser mãe do filho vivo. Pilatos lavou as mãos suspeitando de que lado estava a verdade. Judas traiu e enforcou-se arrependido, e Pedro só depois de o galo cantar três vezes, admitiu a sua traição…
Na vida real podemos assimilar milhares de casos, vividos ou simplesmente informativos através das redes sociais e outros meios de comunicação. O Português tem genes entranhados de etnia indefinida que o repulsa e estimula simultaneamente. Já dizia um mestre que tive: Pour les portuguais il n’y a pas de obstacles! Resumindo:
Se grande quantidade dos lesados e oprimidos se resignam receando represálias contundentes, os chamados de reacionários – como eu – tem sempre uma palavra a dizer quando observa injustiças para colmatar benefícios pessoais ou coletivos, interesses, políticos ou religiosos, por deixar de acreditar que: “cada um paga por si” mas ninguém paga por todos.
O beatismo e as convicções politicas, transformam num banzé as populações, sobretudo as mais carentes, roubando-lhes as munições reservadas à imunidade. O suborno e a corrupção tornaram-se o pão nosso de cada dia, e só sobe a escada aquele que aquiescer. De volta fecham-se os olhos ao licenciamento e projeto de certas construções em troca de dois votos nas eleições. Constroem-se armazéns dimensionais em cima de ruas enquanto outros são obrigados a recuar 12m do centro da rua, apresentar levantamento, projeto e licença, para a construção de uma barraca de 50m2. Onde vive a justiça? A divina? Tretas tio gretas.
Em Murçós, em tempos bem recentes, alguém apelidou os lideres de: “coveiros do povo” O túmulo tornou-se demasiado pequeno e os coveiros aumentam cada vez mais e mais livremente! Será que nunca ninguém se perguntou por que razão um solo tão rico e uma população tão apaixonada pela terra, nunca mexeu palha para lhe dar a dignidade a que tem direito? Pelo contrário vão depenando até cair no abismo, velando simplesmente pelos interesses pessoais… e tem saudades! E chamam-lhe a minha linda terrinha! Aqui levanta-se pilatos e pergunta: quantos eras no tempo dos sensos? – 233. Quantos votantes nas últimas autárquicas? – 260; mas então porque deixou de ser freguesia? – Porque deixou de haver tomates – responderia um louco qualquer.
O nosso sino já funciona com comando a distancia, muito mais adequado ao estado de saúde do sacristão; felizmente só bate as horas, e o relógio não foi colocado na fachada frontal deteriorando a beleza característica.
Deixei para último um recadinho para os senhores mandões: É lamentavelmente vergonhoso tanto para os responsáveis autárquicos, como para os municipais, enviar uma funcionária, como uma caçadora de clientes, para anunciar o pagamento permanente da água juntamente com os resíduos e tratamento de saneamento, e chantagear o povo com ameaças de pagamentos extras, caso não aderissem imediatamente. Será que só conhecem a Aldeia em tempo de eleições? O mínimo que lhes competia fazer era dar a cara, reunir as pessoas e esclarecê-las, quanto às nascentes, contadores, e tabelas de pagamento. Mas não, refugiaram-se todos por detrás de um manto que considero de cobardia, deixando ao deus dará os
 munícipes votantes que ajudaram a elegê-los, mas, como é óbvio, o slogan utilizado “sim é possível” só servia para subir ao pelouro. Se são esses os métodos utilizados para arrumar a casa – como V. Exª dizia – não é de todo a mais desejada. Também os seus assessores têm a sua cota parte de responsabilidade, sobretudo a chefe de serviço, que por acaso até é meia de cá! Quanto aos contadores são propriedade dos moradores o que podem exigir o pagamento de uma taxa.
Quanto aos representantes da freguesia, já não me surpreende, sobretudo o do presidente funcionário camarário, não tem credibilidade, nem suporte politico para desempenhar qualquer função.
Manifesto a minha revolta, não porque não concorde com a entrega às águas de Portugal com gerência da câmara, embora considere os preçários excessivos em relação a outros concelhos, e o tratamento da água que durante o inverno deixa de ser bombeada e como as nascentes não tem tratamento vamos continuar a ter nas torneiras água imprópria para consumo, e a correr pela valeta baixo, e nós a pagá-la. Também não beneficiamos das águas de regadio, pelo que se justificava outros preços.
Esta é a tabela juntamente com os resíduos e tratamento saneamento:
·         Resíduos = 3;00
·         *saneamento = 1,50
·         Água até 5m3 = 0,60 x1m3
·              “    de 6 a  10m3 = 0,90x1m3
·            “       de 11 a 20 = 1,65 x 1m3
·         Mais de 21 =2,70 x 1m3